Reflexões

07:00


Olá pessoas! Tenho notado que vocês andam sumidos... Será que os capítulos estão muito grandes para o blog? Preciso que opinem para que eu possa adaptar as postagens ao gosto de vocês, ok?

Bom, lá vamos nós para o quarto capítulo! Abaixo, os links para que baixar a 4ª carta de Natália para a Fênix e para os capítulos anteriores.



Boa leitura!


QUARTA LIÇÃO – O Que Não Conhecemos Nos Assusta...

            Andrew chegara cedo ao hospital. Tinha sido difícil convencer os pais e irmãos da moça a deixá-lo vir mais uma vez. Só permitiam uma visita por dia e ele pretendia se certificar de que a morte não viera durante a noite para acompanhar os últimos dias de Natália. Esperava em um banco de madeira pintado de branco, observando ao redor as macas que entravam e saíam do CTI todo o tempo. Algumas levavam cadáveres, outras tinham a morte na cabeceira. Médicos e enfermeiros as arrastavam pelos corredores, fazendo barulho por causa das rodas metálicas mal engraxadas. Ele já não se assustava com a figura. Depois de tantos anos de terapia, estava convencido de que se mantivesse uma fita vermelha amarrada ao pulso, estaria protegido e a manteria longe dele. Por precaução, amarrou um lenço, pois os lenços eram bem maiores que as fitas e enquanto dobrados, poderiam facilmente esconder aquele que era o seu verdadeiro amuleto: uma cicatriz sobre o punho esquerdo que fora o único presente que o pai lhe deixara. O corte e a marca dos três pontos eram vistos por baixo do lenço.

A surra era uma das pouquíssimas lembranças que tinha do pai. Fora em um dia quente de verão. Andrew assistia à televisão na sala de estar enquanto o pai bebia cerveja na cozinha, como era de costume. A mãe tinha acabado de sair para o turno de trabalho da tarde, quando Andrew ouviu uma voz sussurrar-lhe nos ouvidos que quem deveria estar trabalhando era o pai e mãe deveria estar em casa, cuidando do filho. Gelado e imóvel, Andrew pôs-se chorar. O pai, indignado com o choro e pelo fato de o garoto não explicar por que começara a chorar de repente, agarrara-lhe o pulso com toda a força, erguendo Andrew do sofá arrastando-o até o quintal. Não podia contar ao pai mais uma de suas esquisitices, temia magoá-lo e só Deus sabia o quanto ele se esforçava para ser um bom filho. Antes que ele pudesse juntar coragem para começar a contar, o pai apanhou uma ripa da porta, há muito tempo quebrada, e com ela bateu em Andrew. Instintivamente, o menino levou as mãos ao rosto na tentativa de se defender, o que causou o corte no pulso. Desta vez quem o salvou de uma fratura maior foi uma vizinha (a única vizinha que tinha telefone e era encarregada de anotar os recados para quase todos os moradores da rua), que viera avisar que a mãe de Andrew havia sofrido um desmaio no trabalho e pedira a seu pai que fosse buscá-la.

Andrew não lamentava a surra. Ele aprendera com ela. Aprendera que não devia deixar transparecer quando ouvia as vozes. Aprendera que o castigo quando aplicado no corpo, não poderia ferir a sua alma se ele a fechasse em um canto escuro. Foi o que ele fez naquele dia e nos outros dias de punições que se seguiram desde então. Apanhara mais algumas surras em casa, apanhara outras na escola, mas nunca se deixou atingir na alma. E ele sabia como fazer isso. Resguardava-se dentro de si e em certas ocasiões, quando a violência era extrema ou cruel, ele sentia mesmo que deixava o corpo. Podia flutuar sobre seu corpo, esvaindo toda a dor, livrando-se do enjoativo cheiro do sangue que vertia das lesões. Ele sabia que era para o seu bem que apanhava. As vozes lhe contavam que tinha um espírito ignorante e que ainda não estava completamente formado, diziam que era como uma criança que ainda não tinha nascido. As provações fariam com que se desenvolvesse, aprendesse e ajudariam a torná-lo forte. Ele compreendia.
As visitas começaram. Ele foi o primeiro a entrar no leito aparelhado e ficou muito feliz ao ver Natália ainda dormindo, mas sem nenhum daqueles tubos enfiados no corpo. Permaneceu em pé ao lado da cama, gradeada para evitar uma possível queda. Ela abriu os olhos devagar e sorriu timidamente para Andrew. Este retribuiu-lhe o sorriso, mas quando foi perguntar se estava se sentindo melhor, ela o surpreendeu.

— Olá, Andrew! — cumprimentou ela, com uma voz animada, como se tivesse acabado de despertar de um sono cheio de lindos sonhos — Eu sabia que você viria!
— Sim, eu estou aqui. Mas foi difícil convencer seus pais para...
— Eu já sei, — interrompeu ela, cheia de vitalidade. Uma vitalidade que Andrew não recordava ter visto antes em Natália. — eles é que queriam vir, mas eu tinha certeza de que você os convenceria. Eu preciso mesmo conversar com você, Andrew. Quero que me diga se você está vendo a morte ao meu lado agora...

— Eu... acho que não é uma boa hora para conversarmos sobre isso... — Andrew sentira uma flecha atravessar-lhe o peito. Não estava acostumado àquele tipo de pergunta e, embora soubesse que as pessoas que o rodeavam tinham muita curiosidade, ninguém jamais se atrevera a perguntar-lhe diretamente. Talvez não acreditassem no dom que ele carregava consigo. Ele não as culpava. Ainda não estavam prontas para crer. Ele mesmo não fazia questão de contar o que ouvia, via e sentia, a quem não interessava receber suas mensagens. Natália era uma destas pessoas que não acreditava. Nunca o desrespeitara, pelo contrário, até acompanhava Andrew às sessões de terapia frequentemente e incentivava-o a procurar ajuda espiritual. Aquela pergunta foi a primeira prova de que ela passara a acreditar no seu dom. Ele apenas desviou os olhos dos dela, mirando ao longe e sentindo a dor angustiando-lhe o peito. Era mais confortável a ele saber que era considerado desequilibrado e até mesmo louco.

Por incrível que pudesse parecer, ele próprio tinha medo de perder o controle sobre o dom que lhe fora concebido. Quando contava com a desconfiança de todos, podia dizer a si mesmo que eles tinham razão e que tudo não passava de mera imaginação de sua cabeça. Mas quando aparecia alguém que acreditava, geralmente pessoas que haviam perdido entes queridos recentemente, Andrew tentava fugir e mantinha-se o mais distante que podia de tais pessoas. Ele não poderia atender aos seus pedidos. Não aliviaria suas almas e nem corresponderia aos anseios. Mas certas vezes quando fechava os olhos, ouvia as vozes pedindo que dissesse aos vivos que seus desencarnados estavam bem. Ele temia dar o recado, mas não conseguia se livrar das vozes enquanto não lhes fazia a vontade. Então ele escrevia. Escrevia as mensagens e encontrava uma forma de entregá-las sem ser visto. Ele superava essas situações em pouco tempo, porque depois de entregues as mensagens, as pessoas e as vozes o deixavam em paz.
Mas Natália era diferente. Ela não iria embora e tampouco ele poderia seguir adiante sem ela. Respirou fundo e, mesmo temeroso, respondeu:

— Não. — respirou e acrescentou — Ela não está aqui com você.
Natália não sabia se acreditava em Andrew ou não. Era claro que se ele visse mesmo a morte acompanhando-a, não lhe diria. Ou diria? Ela considerava que ele não era uma pessoa normal, como todas as outras. E se tudo aquilo não passasse de invenção de sua mente perturbada? Para ela o fato de Andrew ter afirmado que a morte não a acompanhava não mudava nada. Ela era uma condenada. E morreria ainda jovem, hoje, amanhã... Natália percebeu a inquietação no rosto de Andrew. Já o vira assim antes e sempre que isso sucedia, ele sofria graves crises, chegando algumas vezes a necessitar de calmantes ou até mesmo de sedativos e internações. Arrependeu-se imediatamente da pergunta que fizera. Já que não acreditava nas visões de Andrew, não deveria mexer com isso. Mas o mal já estava feito e por mais que ela tentasse consertar, não tiraria o tormento que infligira àquela pobre alma doente.

— Desculpe-me, nem sei por que perguntei isso. De qualquer forma você não me diria a verdade.
— Eu disse a verdade! — quase gritou — Eu nunca menti pra você! Ela não está aqui agora, ela não virá buscá-la porque não é a sua hora!

— Desculpe-me... — repetiu ela em um sussurro. Mesmo as lágrimas que brotaram timidamente nos cantos de seus olhos não puderam apagar tamanha vivacidade de seu rosto, que Andrew não se cansava de contemplar mesmo sem poder explicar. De fato, ele dissera a verdade. A morte ainda não viria buscá-la. Ou estaria se disfarçando para que ele não a visse? Ela não perderia seu tempo com isso. Ele tinha a impressão de que era ela, a morte, que não o via. Passava por ele, estendia-se ao seu lado, mas parecia não perceber sua presença. Certas vezes, demorava a levar alguém embora. Havia pessoas muito agarradas as suas vidas, muito presas a este mundo e eram estas as que davam mais trabalho à senhora morte. Nessas ocasiões, o processo podia levar dias. O moribundo agarrava-se ao corpo e a morte esperava pacientemente ao lado de Andrew. Já vira acidentes em que pessoas muito jovens perderam a vida e esses eram os casos mais graves. Os jovens eram ainda muito apegados aos corpos e não queriam deixá-los de maneira alguma. A morte é paciente e sabe esperar a hora certa, quando os aparelhos são finalmente desligados e os laços que os prendem aqui neste mundo são cortados, aí é o momento dela.

— Você não irá morrer tão cedo, pode ficar tranquila. — reforçou ele, agora se contendo para não magoá-la — Mas precisa descansar. Não será bom se tiver que passar o resto de seus dias sofrendo. Cuide-se. Resguarde sua saúde para usá-la pelo tempo que ainda lhe resta.

Ela se cuidaria. Precisava estar preparada para as aventuras que enfrentaria logo que deixasse o hospital. A ideia não fora esquecida no dia seguinte, nem no próximo, nem no outro, como era de se esperar, mas ao contrário, estava cada vez mais fixa no pensamento de Natália. Dava-lhe forças, evitava a depressão e fazia nascer uma energia que ela não sabia de onde vinha, mas que nunca sentira antes. Era como uma paixão de adolescente pela qual se vivia e morria, pela qual tudo se tornava possível. Essa energia lhe transformara em uma super mulher, capaz de realizar todos os sonhos, os desejos, fazia-a entender o que era viver e mostrava-lhe que nunca tinha sido feliz como gostaria. E como agora, ela seria. 

Andrew preferiu voltar para casa andando. Estava frio, mas ele queria sentir o frio no rosto mais uma vez. E queria estar sozinho por alguns momentos, o que o ajudaria a pensar. Pensar em Natália, no que ele vira em sua face. Não era comum ver felicidade no rosto dos doentes, isso ele sabia por experiência, pois costumava passar a maior parte do tempo visitando doentes. De onde brotara aquele olhar vivo, atento, aquela paixão de viver? Por que agora, quando a doença aparecera e era realmente grave? Ela sabia que, mesmo sobrevivendo, precisaria de tratamentos intensivos e constantes, e poderia carregar sequelas para o resto de sua vida. E isso lhe causara felicidade? Algo acontecera, Andrew sentia, mas não podia identificar ainda. Estava acostumado a desvendar os mistérios da alma das pessoas, as sensações negativas, a acalmar os pesadelos com suas palavras. Entendia perfeitamente os sentimentos negativos. Podia isolá-los, ajudar as pessoas a conviver com eles, e a relevá-los. Mas a felicidade o incomodava! A paixão incomodava-o! Ele jamais alimentara qualquer coisa parecida! Fora infeliz por toda a vida e sabia que todo mundo também era assim. Encarar a felicidade fora assustador. Como o desconhecido sempre é: assustador.

Raquel Pagno
 www.raquelpagno.com    

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16 leitores apaixonados❣️

  1. Olá Raquel, olha não estou acompanhando, desde o inicio, mas lendo aqui, vejo que preciso urgentemente ler os outros para poder entender o que esta acontecendo. Porem, mesmo não tendo lido eu gostei bastante, uma historia que envolve a morte, o sobrenatural. Isso me motiva muito a ler, até porque, quem me conhece sabe o quanto eu gosto disso.
    Vou abaixar os primeiros e depois volto para falar sobre.

    Beijokas Ana Zuky

    http://www.sanguecomamor.com.br

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    Respostas
    1. Obrigada por ler Ana, fico feliz que tenha conseguido atiçar sua curiosidade. :D
      Aguardo sua opinião e não perca os próximos capítulos, todas as sextas.
      Beijos!

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  2. Como eu já disse antes, esse dom do Andrew deve ser mesmo muito difícil de lidar. Ainda bem que ele não viu a morte do lado da Natália, seria absurdo ter que suportar isso. Que triste ter tido a infância que ele teve, e que triste ele se assustar tanto com a felicidade...

    Beijo!

    Ju
    Entre Palcos e Livros

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    1. Sim, uma barra o dom de Andrew...
      Mas a amizade de Natália é fundamental para que ele suporte o fardo.

      Obrigada pela visita! Beijos!

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  3. Oiee =)
    Nossa, que intenso!
    Senti aqui a dor da surra, o desconforto pelo o que o dom causa, gente ver a morte, nossa estou com medo só de pensar.
    Espero que venhas coisas boa para o Andrew pela frente.
    Beliscões da Máh ♥
    Blog
    Instagram

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    1. Muitas revelações ainda estão por vir. Não perca os próximos capítulos.
      Grata pela visita! :)

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  4. Tadinho do Andrew! Primeiro ele tinha um pai horrível e segundo esse dom não é nada fácil! Gosto muito desse lado sobrenatural, ouvir vozes e essa relação com a morte! Bem intenso mesmo!
    Gostei muito desse capitulo! Curiosa quanto ao próximo!
    Beijos Raquel! s2

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    1. Andrew não teve uma vida boa, mas aprendeu a lidar com isso. A amizade de Natália foi fundamental pra ele.
      Não deixe de acompanhar os próximos capítulos! Beijos!

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  5. Olá, quando você começou aqui acompanhei o primeiro
    capitulo e depois acabei não conferindo os outros, mas espero
    arrumar um tempinho e voltar aqui e ver os outros.
    Mesmo assim estou adorando conhecer mais sobre tudo que
    você escreveu
    bjs

    http://www.loveebookss.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Solange, fico muito feliz que esteja gostando. :D
      Aguardo sua visita nas próximas sextas. E não deixe de comentar, sua opinião é muito importante.
      Beijos!

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  6. Oii,
    Eu ainda não li os anteriores, mas vou ler assim que sobrar um tempinho, mesmo porque gosto muito de histórias sobrenaturais e fiquei super curiosa. Assim que eu ler todos volto p comentar.

    Bjs
    Aline Lima
    http://alinenerd.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Conto com sua opinião! :D
      Obrigada pela visita. Beijos!

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  7. Raquel, vou primeiro atrás dos demais textos para poder chegar a este, ok?

    Beijo

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    Respostas
    1. Ok, aguardo uma nova visita sua!
      Sua opinião é muito importante! Beijos!

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  8. Olá Raquel,
    Não acompanhei os outros capitulos e fiquei um pouco perdida. Mas eu adorei e vou ler os outros e continuar acompanhando.
    Beijinhos!

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  9. Olá

    Como faz muito tempo e só agora eu vi que não havia comentado neste link, não me lembro muito bem do que eu tinha lido, aliás acredito que eu só tenha lido o primeiro capítulo então o texto me bugou e eu não entendi muito bem todas as coisas certinhas. Mas, como achei interessante e lembro até de ter curtido aquele primeiro capítulo e tudo mais, pretendo começar de novo e depois voltar aqui.

    Abraço!
    www.umomt.com

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