Reflexões

07:00


Olá pessoas! Vejo que vocês andam meio desinteressados pela leitura aqui.  O.o
Se preferirem que eu poste outras coisas, é só deixar um comentário ali em baixo que veremos isso, ok?

Enquanto isso, segue o quinto capítulo de Destino!
Como pode uma pessoa que descobre estar a beira da morte, ter tanta vitalidade e força de vontade?
Vamos descobrir junto com Natália?

Boa leitura!


  


QUINTA LIÇÃO – Ter Confiança...

Ela estava em casa. Fora-lhe recomendado que mantivesse o repouso por algum tempo, mas apesar da insistência da mãe, ela preferiu ir para sua casa. Sentia-se bem e não admitiria ser tratada como uma inválida. Queria pôr em prática os seus planos. Tinha medo que a paixão se extinguisse, medo de cair em depressão e perder a vontade enorme que sentia no coração. Começaria por falar ao síndico sobre o terreno atrás do prédio. Queria mexer na terra o quanto antes. Seria o princípio da mudança, o princípio de sua nova vida.
Assim que toda a família fora embora, Natália pôs-se a arrumar a casa. Estava há tempo precisando de um trato e ela imaginava que, se o aneurisma no cérebro aguentara todas as suas estripulias até agora, aguentaria uma simples faxina. Começou pela cozinha. Lavou a louça que estava sobre a pia, mas não satisfeita, retirou as que estavam no armário e lavou-as também. Depois limpou os armários, areou as panelas, limpou o chão engordurado da cozinha. Seguiu até o banheiro. Retirou as cortinas plásticas e as colocou de molho no sabão em pó com um pouco de alvejante, para afrouxar as manchas escurecidas de mofo. Sentiu vontade de tomar um de seus banhos demorados, mas tinha acabado de tirar a cortina para lavar. Imediatamente, afastou a sensação de culpa e resolveu se permitir mais do que um banho sem cortina, que molharia todo o banheiro: ligou o aquecedor a óleo na pequena circulação e deixou a porta aberta pra aquecer o banheiro todo. Lembrou-se da promessa que fizera para si mesma, no hospital e que poderia não ter outra oportunidade de se permitir aquele banho. E além do mais, ainda nem tinha começado a limpar o banheiro e a circulação. Poderia muito bem sujá-los primeiro para depois limpar!
Sentia-se bem embaixo da água quente e sem o ar frio a açoitar seu corpo. O aquecedor a óleo era potente o bastante para esquentar todo o apartamento. Ela se ensaboava e cantava sua canção preferida. Em voz alta porque já não se importava se os vizinhos ouvissem e a achassem ridícula. Distraidamente, deixou o sabonete escorregar. Abaixou-se para juntá-lo e ao tentar se reerguer sentiu a tontura novamente. Ainda não!, disse repetidamente. Sentou-se no piso frio e molhado do banheiro e esperou alguns minutos. Os rodopios diminuíram gradativamente e ela conseguiu se reerguer, apoiando-se com cuidado nas paredes encharcadas. A cabeça doía um pouco, mas nada muito além do normal. Massageou o crânio com as pontas dos dedos e manteve os olhos fechados. Instantaneamente viu a cena do pesadelo em sua frente, pela primeira vez em todos estes dias. Não sonhara o mesmo sonho desde que estivera no hospital. Talvez fossem os sedativos, ela pensava, que a impediram de sonhar.
O coração disparou. Ela podia sentir o calor da explosão espelhado em sua pele. A impressão de perder alguém amado, a falta de alguém... quem poderia ser? Ela não vira nenhum rosto conhecido durante o sonho. Ninguém absolutamente entre os muitos que ela via. Homens e mulheres correndo e gritando aflitos, em todas as direções. Rostos molhados de lágrimas, como o dela própria. Os joelhos tocando o chão com força, como fizera há pouco no piso do banheiro. Podia sentir a terra sob os joelhos, as imperfeições do campo bruto. O peso do corpo a curvar-se sobre o colo era tão evidente quanto as palmas das mãos secando as lágrimas que corriam intensamente pelo rosto. Porém esta vez fora diferente das outras. Alguém se aproximara e segurara-lhe os braços, fazendo com que se levantasse. Ela vira apenas um vulto por detrás do véu acastanhado dos cabelos soltos pela face, que se desprendiam rebeldemente do chapéu de abas largas que usava para conter o forte sol. O vulto acolheu-a em um abraço protetor, e ela percebeu uma réstia de fogo sobre o que procurava consolá-la. Não teve dúvidas quanto a este fogo que já fora visto por ela milhares de vezes. Nada mais era do que os ruivos cabelos de Andrew. E ela o afastou de si, de modo que pôde contemplar seu rosto também marejado de lágrimas, e a mão forte que não soltava o seu braço a nenhum custo e a impedia de se aproximar.
Abriu os olhos, despertando do transe. Nunca prestara atenção a esta parte do sonho. Ficara preocupada apenas em reconhecer a pessoa amada que partira, mas não dera atenção ao amigo que a consolava. E sempre procurara espantar as lembranças do doloroso pesadelo para longe, o mais rápido possível. Agora que resolvera mudar toda a sua vida, faria diferente: concentrar-se-ia em recordar o máximo e melhor possível o sonho que a perseguia. Quem sabe assim pudesse desvendar o mistério ou livrar-se dele de vez? Pensou em primeiro lugar, que deveria contar a Andrew o que se lembrara desta vez. Se alguém pudesse lhe explicar por que isso acontecera, este alguém era Andrew.
Desceu as escadas, agora apoiada no corrimão. Não queria correr o risco de sofrer mais uma tontura e despencar escada abaixo. Como o amigo lhe dissera, precisava cuidar-se para viver bem o tempo que lhe restava.  Conseguiu autorização para transformar o pequeno pedaço de terra do condomínio em um ornamentado jardim e depois seguiu em direção à floricultura que ficava a quatro quadras dali. Estava em busca das sementes. Não quaisquer sementes, precisava das sementes certas, que germinassem todo o ano, pois já era início de inverno e não correria o risco de perder toda a estação plantando as sementes erradas. Caminhou pelos corredores avaliando cada uma das espécies expostas em pequenos cachê-potes pelas prateleiras da loja de flores. Olhou minuciosamente para cada uma delas, cada espécie com sua cor diferente, trazendo consigo uma beleza única, que não era comum em mais nenhuma espécie. Observou como cada florzinha era única, com suas pétalas de tamanhos diversos, com tonalidades diferenciadas. Imaginou-se assim, como uma pequena flor de cor e tamanho diferente das demais, mas não menos bela e perfeita. Escolheu algumas espécies rasteiras de tons quentes, alaranjados e cor-de-rosa. Escolheu uma grama miudinha que mais parecia um tapete inteiro de veludo verde. Enfim, escolheu a flor que gostaria de ser. Uma minúscula rosa vermelha que se esparramava em galhos que se agarravam nas cercas e telas como um cipó. Percorreu mais uma vez os corredores da loja onde encontrou um item importante: as pedras ornamentais. Separou variedades de seixo rolado branco, pedras de rio amarelas e cor de barro, algumas placas de arenito e separou também alguns cristais, mas depois desistiu, porque eram pesados demais para que pudesse carregá-los. Deu uma última olhada, certificando-se de que não se esquecera de nada. Feita a conferência das mercadorias, encaminhou-se ao caixa, para a felicidade da moça que a atendera. Pagou com cheque pré-datado, então agarrou todas as sacolas com uma única mão e caminhou para a saída.
Antes de colocar o pé na rua, deu uma última olhada para o lado e constatou que havia muitos cartazes, talvez comerciais, presos à parede lateral da floricultura. Aproximou-se. Eram cartazes de espetáculos. Gostou da ideia de sair para divertir-se um pouco. Era tudo de que ela precisava para renovar de vez suas energias. Olhou com mais atenção as datas e os horários. Muitas bandas de estilos musicais variados, mas nenhuma que ela conhecesse ou apreciasse. Duas peças teatrais, uma comédia e um drama. Estes lhe agradaram. Ela queria anotar as informações, mas não tinha caneta e nem papel. Largou seus embrulhos ali mesmo e voltou ao caixa, pediu-os para a moça que a atendera tão gentil e pacientemente. Anotou todos os horários e percebeu que entre tantos anúncios, não percebera um em especial. Tratava-se de um pequeno cartaz com o desenho de um avião e anunciava um show de acrobacias aéreas na cidade, dentro de alguns dias. Um famoso piloto, do qual Natália não recordava ter ouvido falar, estaria pessoalmente fazendo um espetáculo diferente, com novas e inusitadas manobras. Natália adorava esportes radicais e a aviação acrobática era, sem dúvidas, um esporte muito radical. Anotou esse horário em especial.
Ao chegar a casa, Andrew a esperava, confortavelmente sentado em sua sala-cozinha, lambiscando alguns biscoitos que encontrara no armário. Os pés estendidos sobre uma das cadeiras, fizeram com que Natália abrisse a boca para dar uma bronca, mas conteve-se, pois em sua nova vida, não havia tempo a ser desperdiçado em broncas. Se a cadeira fosse suja, ela a lavaria mais uma vez e era só.
— Olá, Andrew! Chegou cedo! — brincou.
— Eu vim ver se está tudo bem. Encontrei a chave e entrei, espero que não fique chateada. Os biscoitos, eu...
— Está tudo bem — interrompeu ela, porque conhecia bem Andrew, e quando começava a se desculpar, levava tempo — Eu estou bem. Aliás, que bom que você veio, eu queria mesmo falar com você.
— Comigo? — Andrew encolheu-se na cadeira o mais fundo que pôde. Imaginou que viriam mais perguntas sobre a morte ou coisa parecida, mas Natália estendeu sobre a mesa o papel com as anotações e pediu que ele examinasse e escolhesse o que gostaria de fazer. Ele apontou surpreso para a peça teatral, a comédia. Gostava de comédias. Quando ria, esquecia por um tempo a dor que habitava o interior de todas as almas e que era tão claro para ele que quase podia senti-las.
— Hum! Teatro! Ótimo! — exclamou ela — Mas não tenho o que vestir para ir ao teatro. Você se importaria de me acompanhar em umas comprinhas?
— Só se você pagar um sorvete!
— Combinado! — respondeu decidida. Abandonou imediatamente as sacolas com as mudas de flores e desceram as escadas mais uma vez, rumo ao centro da cidade.
Caminharam, conversaram, experimentaram todas as roupas que tiveram vontade. Há muito tempo não passavam uma tarde tão agradável juntos. Sentaram-se no pátio da sorveteria, onde mesas de plástico foram negligentemente dispostas e cobertas com um quebra-sol de lona, improvisado. O local não era bonito, mas era agradável. Degustaram lentamente, um sabor de cada vez para não confundir o paladar. Andrew formava desenhos com a calda de chocolate, fazendo Natália rir. Ela despejava refrigerante em uma taça cheia de sorvete, só para ver a espuma que se formava. A tarde era perfeita. Depois de tantos dias de frio cortante, finalmente o sol lhes dera a graça de sua presença, elevando um pouco as temperaturas. Mesmo assim o sorvete deixava Natália arrepiada a cada colherada e fazia os dentes de Andrew doerem.
Ele acabara de desenhar um gatinho com a calda de caramelo, e voltou-se para Natália, porém não encontrou mais aquele sorriso de minutos atrás. Ela estava pálida e tinha uma das mãos sobre o ventre. Segurava ainda a colher na outra mão e ele notou que tremia bastante. Agarrou-a imediatamente, temeu que Natália fosse desmaiar. Indagava o que estava acontecendo, seria a doença se manifestando mais intensamente agora? Ou eram os reflexos do tratamento, os efeitos colaterais das fortes drogas das quais se tornara dependente? Ela nada respondeu. O olhar fixo ao longe, além do horizonte e o medo expresso nos olhos. Ele sentia o medo. Decidiu não fazer mais perguntas. Ele já sentira muito medo na vida e sabia com era ruim dar explicações nessa hora. Mudou sua cadeira para o lado dela e entrelaçou-a com seus braços quentes. Natália estava inteiramente gelada.
Fora como uma dor aguda a atingir-lhe o peito e as entranhas. O ar esvaiu-se dos pulmões, sufocando-a, quase matando-a. Levou as mãos instintivamente ao abdômen, procurando arrancar a faca que, ela tinha certeza, alguém acabara de cravar em seu corpo. Baixou a cabeça e, para sua surpresa, não havia faca alguma. Natália se esforçava para puxar o ar até os pulmões, e só muito tempo depois conseguiu dizer a Andrew que estava bem. O coração acelerado parecia querer saltar pela boca. Agarrou-se a Andrew, ele era seu único refúgio e poderia salvá-la daquela dor, daquela sensação de quase-morte que acabara de experimentar.
— Eu... eu preciso contar uma coisa... — disse ela, sussurrando para que ninguém além dele pudesse ouvi-la — Aquele sonho que me persegue, você estava nele, Andrew. E eu acabo de ver o homem que morre a cada noite dentro da minha cabeça...
— Onde? Cadê? — quis saber Andrew, ou não. Apenas foi a única coisa que lhe ocorreu dizer. Aprendera que sonhos são lembranças. Lembranças de outras vidas, de pessoas que já conhecemos, com quem já convivemos. Ele aprendera hipnose e até mesmo fizera sessões de regressão em busca de pessoas, em busca de dar sentido aos seus sonhos. Conseguira. Encontrara muitas das respostas que procurava e mesmo algumas as quais não se atrevera a procurar. Todas elas estavam guardadas dentro dele, dentro da sua alma, apenas aguardando para despertarem. A cura estava em si, os motivos também estavam ali. Mas principalmente, as respostas. Se ele fora bem sucedido, quem sabe Natália também pudesse ser? Sabia que a amiga não acreditava nessas coisas de outras encarnações, mas não custava nada tentar.
— Ali! Já se foi! — respondeu ela.
— Você tem certeza? Quer dizer, não que eu esteja duvidando, mas... — ele se calou. É claro que ela tinha certeza. Tanta certeza que quase desmaiara. — Eu posso ajudá-la, se você deixar. Eu acho que sei de uma maneira eficaz de esclarecer isso tudo e, na pior das hipóteses, espantar esses pesadelos. Mas você precisa confiar em mim.
Ela confiava. Arriscava-se a dizer que ele era a pessoa em quem mais confiava na vida e lhe entregaria sua vida de olhos vendados. Ele a aquecera. O gelo e a rigidez estavam deixando o corpo dela, bem devagar. Já podia sentir o ar entrando pelos pulmões facilmente, apesar de persistir a dor no abdômen. Sentia-se um recém-nascido que acabara por aprender dolorosamente a respirar.

— Eu confio em você, Andrew. Farei o que você quiser que eu faça. Mas antes, preciso lhe explicar o sonho, com detalhes. Vamos para casa.

Raquel Pagno
www.raquelpagno.com    

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