Reflexões

07:00


Pessoal, segue o décimo capítulo de Destino pra vocês. A partir daqui, fico muito emocionada todas as vezes que o leio. Espero conseguir emocioná-los também. 

Boa leitura!



DÉCIMA LIÇÃO – Um Anjo do Céu...

            O aeroporto era pequeno, fora desativado havia alguns anos por falta de infraestrutura para receber aeronaves de grande porte. O mundo mudara depressa e agora um pequeno grupo de instrutores de voo, apaixonados pela profissão, tentavam a duras penas manter o sonho vivo. Aquele show era para eles um marco, significava a ressurreição da instituição falida, a abertura de novos horizontes que atiçariam as pessoas a fazerem doações. Era o início de uma pequena escola de voo que durante muitos anos fora o sonho daqueles que o fundaram, e que agora, estava prestes a se tornar realidade nas mãos dos filhos e netos, todos amantes da aviação.
Natália e Andrew chegaram cedo. Mal tinham sido abertos os portões e eles já estavam lá na frente, bem perto da longa pista onde o homem desceria com sua pequena máquina de sonhos. Ela não queria esperar porque sentia frio, apesar do sol quente, o vento gelado açoitava seu rosto. O abrigo que vestia deixava transpassar o ar gelado que lhe inundava o corpo. Andrew insistiu que ficassem. Não queria correr o risco de não conseguir um lugar privilegiado para assistir ao espetáculo, afinal, não era sempre que teria a oportunidade de pedir um autógrafo ao famoso piloto. Tirou a jaqueta de couro que vestia e a colocou sobre os ombros de Natália. Não era muito quente, mas seria suficiente para impedir o vento.
Ela olhou em volta, as pessoas chegavam de todos os lados. Motoqueiros, motoristas, ciclistas e também havia os que caminharam quilômetros para chegar até ali. Imaginou se ela teria tido a mesma coragem que essas pessoas, a força de vontade, se era semelhante à vontade de viver que ela sentira quando saiu do coma. Naquela hora ela julgou-se mais forte que o próprio mundo ao seu redor, naquele momento poderia ter vencido inúmeras batalhas, até mesmo uma guerra, a eterna guerra que declarara contra si mesma, e tudo isso sozinha. Sentira essa vontade de andar quilômetros a fio em busca de algo que lhe fizesse ver a verdadeira beleza. Não a beleza dos corpos, dos objetos, mas a beleza da vontade, que fazia com que os olhos brilhassem. A vontade que nascia do desejo e que dava sentido à vida. E quando se perdiam todos os desejos, como ela estava perdendo agora, não havia mais motivos para continuar vivendo. Uma pessoa sem desejos era o mesmo que uma pessoa morta, que anda e respira, mas já não tem alma, um corpo seco.
Era isso que ela estava se tornando. Um corpo seco. Perguntara-se milhares de vezes se precisava ser assim. Lembrava-se das palavras de Andrew e do terapeuta/hipnólogo quando disseram que o destino é escrito por cada um de nós, mas não podia explicar por que um destino que ela jamais imaginara, agora se abatia sobre ela em forma de maldição. Como poderia ter desejado ver em seus sonhos alguém que jamais conhecera? Ainda que toda aquela história de vidas passadas fosse real, e por mais que tentasse analisá-la como algo diferente de um delírio, não encontrava motivos que justificassem aqueles miseráveis pesadelos. Não podia haver memória que resistisse a uma nova encarnação. Mesmo porque, ela nem estava certa se realmente acreditava em tudo aquilo. A experiência fora muito interessante, mas não provara que teoria da reencarnação era verdadeira. Ela podia ter sido induzida apenas, a imaginar tudo o que vira. O terapeuta/hipnólogo era um homem esperto e experiente, parecia amigo e agradável, mas tudo poderia ser um disfarce para conseguir mais e mais pacientes. Quem sabe fora induzida para que visse o que queria ver? Nesse caso ainda precisaria encontrar uma explicação razoável para o transe que se dera sem o auxílio do doutor. Para isso ela ainda não encontrara uma justificativa convincente. Será que estivera apenas sonhando? Dormindo profundamente, tão profundamente que não acordara nem com o chamado de Andrew, com as sirenes da ambulância, com os médicos no hospital a examinando, com as agulhas introduzidas em seu corpo para os exames... Isso era ridículo! Definitivamente não estivera dormindo! E também não precisara da intervenção do terapeuta/hipnólogo para fazê-la ver o que queria, ela mesma fora capaz de procurá-lo, de encontrá-lo, bastou se concentrar da maneira que aprendera. Tinha que admitir já ter experimentado sensações semelhantes, principalmente durante o banho, quando relaxava completamente. Porém, nunca se deixara ir tão longe. Não sabia como ir tão longe. Agora sabia. Estava livre para viajar quando e como bem entendesse. Só precisava de silêncio e uma vez satisfeita essa condição, voltaria ao passado, onde e quando escolhesse, sem interferências ou induções, mesmo que tudo não passasse de um delírio de sua mente, tentando se enganar, mentindo ao insistir que aquilo fora realidade algum dia.
Os aplausos a distraíram. Não havia percebido o barulho do motor ou o pequeno ponto que se movia no horizonte. Ao seu lado Andrew vibrava. Não era muito chegado a espetáculos como aquele, mas aprendera com Natália a admirar o esforço de pessoas que dedicavam a vida a divertir os outros. Era preciso ter coragem para ser capaz de executar tamanha loucura. Ele dissera isso a ela uma vez, ela respondera que quando se faz o que se gosta, a coragem surge espontaneamente. E reforçara sua tese dizendo que não é o dinheiro que move o mundo, mas sim as paixões. Ele compreendeu que ela encontrara uma verdade na qual ele ainda nem pensara. Estava certa. Para entender melhor ele começou a observar pessoas apaixonadas, como suas auras eram vermelhas, carmins e vibrantes. E como eram realmente corajosas! Uma pessoa apaixonada era capaz de mover montanhas, de fazer chover, se preciso fosse. Milagres eram operados pelos apaixonados, o tempo todo. Andrew sentiu-se meio tolo por não ter percebido isso antes. Apesar de tudo o que via, de seu aguçado sexto-sentido, não se dera conta justamente da força mais poderosa que existe e que move o mundo, a paixão. O etéreo amor então, mesmo sendo duradouro, cantado pelos poetas como uma força inimaginável, não era mais do que o sustentáculo da paixão. A diferença é que nem sempre no amor encontra-se a força necessária para superar certas dificuldades, enquanto que a paixão torna-nos invencíveis.
O avião se aproximou rapidamente curvando-se em um rasante sobre os hangares do aeroporto, levando ao delírio as pessoas que ali aguardavam. Ainda faltavam algumas horas para o início da demonstração, mas o piloto fizera questão de sobrevoar a cidade antes de pousar. Andrew não gostou do exibicionismo, preferia que o piloto fizesse aquilo apenas para testar o equipamento, ou verificar o vento, mas que guardasse o espetáculo para o momento devido. Mais algumas voltas e uma pirueta, só para aquecer ainda mais o público. Voou para a cabeceira da pista, preparando-se para o pouso. Desceu suavemente, como em um balé perfeitamente ensaiado, o oposto das manobras loucas que fazia no ar. Manobrou a aeronave de maneira a deixá-la de frente para as pessoas curiosas, que pretendiam fotografá-la. Se tivesse acontecido há alguns meses, Natália seria a primeira a furar a barreira de seguranças, com bloco e caneta à mão, tentando colher um autógrafo. Convenceria o próprio piloto a tirar ao menos uma foto consigo, que colaria na porta de sua geladeira para que todos vissem como ela era importante, como fora privilegiada, escolhida para chegar tão perto do ídolo. Mas agora isso tudo não fazia mais sentido. Para que iria desejar guardar um retrato por tão pouco tempo? Não teria sequer para quem mostrá-lo! Dois homens da segurança aproximaram-se do avião, ajudando o piloto a desembarcar. Natália viu apenas de relance por detrás das cabeças e braços que acenavam para o piloto, a sombra do macacão verde-musgo e o capacete azul e branco. Ao seu lado, Andrew ainda vibrava. Vibrava com mais emoção agora que estava tão próximo. Pulava e acenava, como se o piloto fosse lhe dar atenção especial no meio de tanta gente. Segurou Natália pelo braço, puxando-a para o final do corredor improvisado com cordas que isolavam a entrada do homem para um dos hangares, propositadamente transformado em um acolhedor camarim. Dali era possível vê-lo nitidamente e sem a interferência das pessoas a sua frente. Aguardaram espremidos entre as cordas e as pessoas que os empurravam e que, assim como Andrew, queriam ver e, se possível, tocar no piloto.
O homem finalmente terminara a entrevista ao jornalista ao lado da aeronave, terminara as gracinhas para o público e começara a caminhar em direção ao hangar preparado especialmente para ele. Vinha com o capacete embaixo do braço, mantinha um andar tranquilo e sorria. Sorria para as pessoas como se fosse um velho amigo de cada uma delas. Segurava as mãozinhas das crianças que escapavam por baixo das cordas e ainda concedeu algumas fotos aos que estavam mais próximos, ignorando os apelos dos seguranças. Parecia à vontade no meio da multidão de estranhos. Quando chegou muito perto, Andrew notou que Natália não conseguiria vê-lo de onde estava e arrastou-a para sua frente, na beira da corda. Este seria um dos dois momentos de que dispunham para conhecê-lo pessoalmente. O outro seria na hora em que ele saísse para novamente entrar no avião e dar o seu show, mas Andrew não tinha certeza se depois conseguiria um lugar tão bom quanto aquele, porque haveria muito mais gente ali, querendo aproximar-se de novo.
Abraçou Natália pela cintura, a fim de protegê-la dos empurrões. Ela esticou o pescoço para poder ver melhor o homem que se aproximava a passos lentos. Ele virou-se diretamente para ela. Natália levou as mãos aos lábios empurrando o corpo de Andrew para trás, inexplicavelmente. Ela parecera não gostar do que vira, apesar da simpatia do piloto. Abriu caminho pela multidão e correu para longe dali. Andrew não sabia o que fazer, olhou mais uma vez para o homem, que seguia seu trajeto como se não tivesse percebido o incidente. Correu atrás de Natália. Por um momento pensou tê-la perdido em meio à multidão. Saiu de perto do tumulto formado pelos curiosos e viu Natália em um canto da cerca que isolava a lateral oposta à pista de pouso. Estranhou sua postura, ela agarrava-se à cerca com uma das mãos e com a outra esfregava os olhos em um gesto de desespero. Andrew não soube o que fazer. Contornou toda a tela, de maneira a ficar na frente de Natália. Ela soluçava tanto que já não podia respirar direito.
— Meu Deus! Natália! O que houve? — perguntou abraçando-a, tentando conduzi-la para a tumultuada saída. Ela resistiu. Não sabia se queria ir embora. Estava tentando retomar o fôlego para então explicar a ele o que acontecera. Concentrou-se no ar que entrava em seus pulmões dolorosamente, tentando sorvê-lo com mais força. Colocara uma das mãos no peito, tentando conter o coração que queria saltar pela boca, e acalmar a ânsia que lhe percorria o estômago.
— Eu... eu o vi... ele... ele...
— O quê? Quem? Ele?
— Eu vi... é ele.... é ele... — ela teve de reunir todas as forças para conseguir explicar. Seus joelhos tremiam demais para sustentar o corpo e ela temeu uma queda. Segurou-se em Andrew com ambas as mãos, enquanto ele enxugava-lhe as lágrimas.
— É ele, o homem dos meus sonhos! É ele! Como pode ser, Andrew? Por que você me trouxe aqui? Eu não quero vê-lo morrer mais uma vez! Leve-me pra casa! Tire-me daqui!
— Calma, Natália! Você precisa se acalmar primeiro! Vai ser impossível sair daqui agora, a saída está bloqueada, tem muita gente chegando, não vai dar pra sair. Fique calma, vamos comprar uma garrafa de água gelada pra você se acalmar. Assim que pudermos, vamos para casa. — Andrew não sabia o que dizer para acalmá-la. Porém sabia que aquele homem não morreria hoje, porque a morte não o acompanhava. Sua aura era viva e intensa, mas ele não tinha certeza se em casos de acidentes inesperados as auras também se apagavam antes da hora da partida. Ele brilhava, emanava paz, um sentimento bom. Quando o viu, ainda que de longe, Andrew sentiu sua vibração. Era muito forte e contagiante, como poucas vezes ele vira. Isso explicava sua popularidade. O exibicionismo a que Andrew se referira logo à chegada do piloto, agora era visto por ele de maneira diferente, um ato de boa vontade para com as pessoas que estavam observando sua chegada, ansiosos por diversão. Muitos não tinham acesso a atividades de lazer, esta seria para eles uma oportunidade que poderia não mais se repetir.
Andrew aprendera que não devia julgar as pessoas pela aparência, ou pelo que quer que fosse. Essa era uma lição difícil de ser seguida, visto que pelas experiências de vida acumuladas no decorrer dos anos, era quase impossível não ter um pré-conceito em relação aos outros. Em certas ocasiões nem mesmo era preciso conhecer a pessoa para pensar (geralmente algo ruim) dela com uma opinião previamente formada. Acontecia muito com os artistas da televisão. Andrew acumulava certa antipatia por alguns personagens, e mesmo inconscientemente, acabava por emanar vibrações negativas aos atores. Teve a oportunidade de ver um desses atores de perto e, da mesma forma que ocorrera com o piloto, viu que estava enganado e que aquela pessoa era linda, não só por fora, mas tinha um espírito lindo também. O preconceito podia mesmo acabar com qualquer um, ele via milhares de pessoas sendo infelizes justamente por causa dele. Andrew não condenava os preconceituosos, pensava que, no fundo, todas as pessoas alimentam um ou outro preconceito, ainda que não o comentem, que o escondam. Não só a discriminação racial ou a doentes portadores de enfermidades contagiosas e incuráveis como a AIDS, mas o preconceito contra as mulheres, contra os homens, os altos e os baixos, os inteligentes e os nem tão inteligentes, os muito belos e os nem tão belos, o preconceito sobre as crianças, estas que Andrew considerava as maiores e principais vítimas. Ele próprio sofrera muito com o por isso quando era criança e ainda sofria depois de adulto. Aprendera a lidar com essas situações, já fora chamado de idiota, de charlatão, de louco, mas aprendeu a não dar tanta atenção a opiniões destrutivas como aquelas, ele não precisava prestar atenção, porque sabia que não era nada daquilo. Mas o que ainda doía fundo em sua alma era o preconceito do pai. Às vezes, em sua mente, Andrew podia ouvi-lo mil vezes o chamando de esquisito. Essa era uma ferida que seguia aberta e ele pensava ser incurável. Nem com tantos anos de terapia e de ter encontrado as respostas para o comportamento do pai, era impossível não associá-lo à falta de amor de um homem para com seu filho e era impossível não sentir a falta deste amor de pai, não se sentir mais rejeitado e, vez ou outra, esse sentimento renascia em Andrew com mais e mais força. Embora a mãe fizesse de tudo para suprir a falta, dando a ele amor em dobro, o amor do pai era especial, era diferente, não menos importante, embora a mãe tentasse convencê-lo o tempo todo de que era supérfluo.
Voltou de seus pensamentos, de sua viagem particular. Era Natália quem precisava dele agora, tinha de achar uma maneira de mantê-la ali até a hora do espetáculo, tinha de provar para ela que o futuro poderia ser bem diferente do passado e aquele homem não morreria agora, não esta tarde. Comprou-lhe a água e ela bebeu meia garrafa de uma só vez. Ainda tremia e as mãos estavam geladas. O objetivo fora alcançado depois de ter sido abandonado. Andrew sentia-se culpado por ter insistido que ela viesse. Poderia ter sido melhor para ela ter rejeitado o convite, assim não ficaria sabendo quem era o homem do sonho e quem sabe encontrasse outro motivo de viver. Agora ele não tinha ideia se fora bom ou ruim ela tê-lo encontrado. Estava ali, tão perto, o objeto de tanto desejo, tão intocável. Ele era inalcançável, por mais que tentasse, não conseguiriam chegar perto dele, muito menos trocar ideias, mesmo porque, se tentassem explicar a história toda, seriam certamente chamados mais uma vez de loucos. Mas já que acontecera dessa forma inesperada, era melhor enfrentar a fera. Faria com que ela ficasse, assistisse a todo o show e visse que ficaria tudo bem, que ele sairia dali vivo. Poderia ser que isso, apenas, servisse para resolver os problemas de Natália. Quem sabe ela só precisasse saber que ele permaneceria vivo após o reencontro dos dois? Era uma tática de gênio! Por que ele não pensara nisso antes?
— Tire-me daqui, Andrew — ela pedia, agora mais calma.
— Eu acho melhor ficarmos, Natália. Fugir não mudará as coisas. Ficar pode mudá-las.
— Você pensa que eu posso salvá-lo? Eu posso? — Andrew viu a esperança inicial nascer de novo nos olhos de Natália. Não era exatamente o que ele queria lhe dizer, que ela podia salvá-lo, mas era melhor não contrariar nem afirmar.
— Se for embora poderá? — a força voltara ao corpo de Natália. Se queria mesmo resolver seu possível carma, se procurara por ele durante todo aquele tempo, por que fugir agora que o encontrara? Sentiu-se covarde e envergonhada. Lembrou da coragem que sentira dias antes, de como teria sido capaz de mover o mundo todo, de revirar os céus e a terra para encontrá-lo e agora ele estava ali, tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Ele seria capaz de reconhecê-la? Ela também habitaria seus sonhos, assim como ele vivera nos dela? Precisava saber e, se fosse verdade, seria fácil mudar a vida dele, escrever seu destino como ela sonhara tantas vezes. Sentiu uma forte pontada na cabeça. Não, o aneurisma não podia se romper justamente agora, teria de esperar mais um pouco. Ela tinha uma missão e não podia partir sem antes cumpri-la. Passou a mão pela testa e sentiu pequenas gotas geladas, suor que escorria apesar do frio e do gelo que lhe percorria o corpo. Respirou fundo, precisava se acalmar, aquela excitação poderia alterar a pressão, matando-a antes que pudesse falar com ele, olhá-lo nos olhos.
— Não vou embora. Vou ficar. Leve-me até ele, Andrew.
— Isso eu não posso fazer. Ele está cercado de seguranças, ninguém pode chegar perto, como você está vendo. Apenas o pessoal do aeroclube tem acesso ao hangar onde ele se encontra. Nós somos reles mortais, minha querida. Por que permitiriam nossa entrada?
— Mas eu tenho que pensar em alguma coisa. Logo. Antes que ele comece o show. Depois de voltar ao céu, aquele anjo, não mais o alcançarei. Vamos Andrew, de volta à beira da corda! Lá é o lugar onde ele poderá me ver. Você acha possível que me reconheça?
— Sim, eu acho perfeitamente possível. Mas pode ser que não aconteça. A memória dele pode estar bloqueada, a ligação pode partir só de você, assim ele nada sentirá ao vê-la. Não passará de mais uma expectadora, mais uma fã.
— Eu posso me tornar uma fanática, posso me atirar nos braços dele, uma fã apaixonada!
— Será arrancada dos braços dele pelos seguranças. E ainda fará com que ele não queira mais falar com você. Pense, coitado do homem! Deve passar boa parte do tempo fugindo desse tipo de fanático. Imagine quantas mulheres dariam a vida para dar uma voltinha naquela máquina! E quantos homens também!
— Está certo. Posso fingir que estou passando mal e assim, chamar a atenção dele.
— O máximo que conseguirá é chamar a atenção da equipe médica, ou dos bombeiros. Imagine quantas vezes as pessoas já passaram mal durante as apresentações dele, em meio a tanta gente, quem sabe com muito calor... Terá que ser mais criativa.
— Está bem, eu posso telefonar para a direção do aeroporto e mentir que tem uma bomba no hangar dele! Essa foi boa, não acha?
— Foi! Boa para chamar a atenção da polícia! Ficou maluca?
— Desta forma eu impediria o show e talvez ele sobrevivesse!
— Mas o que lhe garante que ele morrerá durante o show?
— Bem pensado, Andrew! Pode ser que o avião caia enquanto ele volta para casa também! Por que não pensei nisso antes? Terei que mentir que há uma bomba no avião, é claro! Assim ele não voltará! Estará a salvo!
— Você é maluca! O que está dizendo?
— Não posso deixá-lo morrer, Andrew! Não, desta vez!
— Ele não vai morrer! Fique tranquila, a morte não está com ele. A aura está brilhando, muitas cores, muitas cores mesmo! Eu garanto que ele não vai morrer hoje!
As palavras de Andrew fizeram Natália despertar das alucinações que a enfeitiçavam. Andrew disse para ela, um tempo atrás, que ela não morreria em breve, porque a morte não a acompanhava. Ela duvidara. Mas ele tinha razão. Estaria certo mais uma vez? Ela queria muito acreditar. Confiar nele significava assistir ao show normalmente, com o coração na mão, apreensiva, mas fazendo de conta que estava tudo bem e que ele não morreria. E se Andrew estivesse enganado? Se ela assistisse à morte daquele homem mais uma vez, de verdade, no presente, e sequer tentasse fazer algo para impedir, seria o mesmo que abdicar da própria vida, da própria paz. Se ele morresse, ela seria a responsável, seria culpada por não tê-lo impedido enquanto podia. E nunca, nunca mais teria uma noite sequer de sono tranquilo, não haveria uma noite em que ele não viesse atormentá-la, como vinha fazendo há meses.
— Você tem certeza?
— É claro que tenho. Pode confiar em mim.
Ela confiava. A ponto de lhe entregar a própria vida, mas não sabia se entregaria a vida daquele homem. De fato, nada poderia fazer para impedi-lo. Andrew estava certo, o máximo que conseguiria era ir parar na cadeia, ou na melhor das hipóteses, responder a um processo em liberdade, o que não a ajudaria em nada, caso ele não morresse hoje, porque ela pretendia acompanhá-lo aonde quer que fosse.
A hora chegara. Ele viria pelo corredor entre as barreiras de cordas e seguranças, sorrindo e acenando. Passou bem perto de Natália, mas por mais que tenha gritado e chamado, ele não olhou para ela. Correu numa linha paralela à corda, abrindo espaço entre as pessoas, como um tigre feroz, tentando acompanhá-lo, ainda gritando e chamando. Ele virou-se de repente, deu seu último sorriso e colocou o capacete. A multidão, enlouquecida, fazia muito barulho, de forma que ele nem notara a presença dela entre tantos que imploravam um único segundo de sua atenção. Caminhou lentamente para o avião. Antes de embarcar, deu um último aceno para os fãs, segurando alto um lenço azul e verde, onde se podiam notar pequenos detalhes em amarelo, que pelo visto, era o seu talismã. Ligou os motores e taxiou até a cabeceira da pista.
Natália rezava de olhos fechados, pra que não tivesse que assistir mais uma vez à morte daquele homem. Era egoísta, e sabia, pois não rezava pela saúde dele, para que tivesse sorte, mas sim para que Deus evitasse o seu sofrimento, o sofrimento que seria perdê-lo mais esta vez. O pequeno avião decolou. Natália agarrou-se a Andrew com força, enterrando a cabeça no peito do amigo, que olhava a aeronave curioso. Ele apertou-a em seu peito. Então pediu que olhasse para cima, assistisse ao show, por que aquele homem, aquele profissional que dedicara a vida a alegrar as pessoas, certamente não aprovaria sua tristeza perante o seu voo. O que ela devia fazer agora, era honrar a coragem dele, admirá-lo enquanto executava as manobras linda e perfeitamente, era isso que ele esperaria dela. Natália não recusou. Ergueu os olhos devagar, para vê-lo. Não adiantava mesmo fugir do pesadelo, ele a encontraria de qualquer maneira. Se houvesse de ser agora, que fosse, então.
Raquel Pagno
www.raquelpagno.com    


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12 leitores apaixonados❣️

  1. Incrível...muito legal,vou ler os outros capítulos ,,vc escreve muito bem!
    bjus

    decorecomgaby.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada Gaby! Ah, e não esqueça de deixar sua opinião nos demais capítulos, ok? Sexta-feira tem mais! Beijos!

      Excluir
  2. É a pura verdade isso, que uma pessoa sem desejos é como uma pessoa morta. Precisamos deles para seguir em frente, eu pelo menos preciso. Confesso que ri da Natália procurando alternativas para chamar atenção do piloto... rs... Que, aliás, eu sabia quem seria, estava na hora dele se tornar "achável"... hehe...

    Beijo!

    Ju
    Entre Palcos e Livros

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Né Ju? Os sonhos nos dão esperança e até mesmo força para continuar, especialmente nos momentos mais difíceis.
      E na hora de encontrar uma forma de chamar a atenção do homem, a mente de Natália trabalhou como a de uma criança... hehehehhehe
      Obrigada pela visita e pelo comentário! Beijos!

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  3. Oi,
    Assim como os outros capítulos que li esse também me conquistou, mas foi além fiquei emocionada com o que li, mesmo ela sendo egoísta ela tinha um coração bom, rezando por ele.
    Enfim aguardo o próximo capítulo,

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    Respostas
    1. Olá Mari! Que bom tê-la por aqui! ;)
      No fundo, ela se preocupava muito com ele, mas o medo de sofrer fazia com que se julgasse egoísta. Uma característica bastante humana, não acha?
      Muito obrigada por ter lido! Não perca os próximos capítulos!
      Beijos!

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  4. Oiee =)
    Como sempre escreve muito bem. E é doloroso, ver alguém que gostamos morrer, aind amais que Nathália viu em sonhos deve ficar mais apavorada, ainda bem que tem o amigo Andrew para lhe ajudar nesses momentos.

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    Respostas
    1. Muito obrigada Maria! :D
      Sim, é muito doloroso, por isso ela está disposta a evitar este sofrimento a todo custo.
      Não perca os próximos capítulo, a trama ficará cada vez mais emocionante.
      Beijos!

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  5. Oi Raquel!
    Acho seus personagens tão reais, tão humanos! Mesmo lidando com o lado sobrenatural da história eles são reias! Entendeu o que quis dizer?!
    Foi bem intenso esse capitulo! E vc sabe que adoro seu modo de escrever, né!
    Parabéns! Beijãooo!

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    Respostas
    1. Obrigada Paula... sempre me emociono com suas palavras...

      A partir daqui a trama fica cada vez mais emocionante. Não perca os próximos capítulos! ;)

      Beijos e muito obrigada pela visita e pelo comentário. :D

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  6. Olá..Raquel.... Não sei se estou sensível, mas teve partes que chorei... Uma pessoa sem sonho e sem desejos não é nada... é apenas alguém que simplesmente vegeta... As vezes as coisas acontecem para alguns para nos trazer de volta a vida e revelar que um coração bate dentro da gente. As vezes o pré julgamento também nos fazem cometer erros as vezes irreversíveis... Gostei muito, mesmo que eu não acompanhe desde o inicio... eu adorei.Xero!

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    Respostas
    1. Fico feliz que tenha te emocionado Diana. Não perca os próximos capítulos, serão todos igualmente emocionante.
      A vida às vezes nos coloca em situações difíceis, mas precisamos ser fortes e suportar nossos fardos. No caso da Natália, a doença serviu inclusive para abrir os olhos para algumas verdades irrefutáveis da visa.
      Obrigada por ter lido! Beijos!

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