No Meu Mundo...

07:00


Pessoal, mais um capítulo de "Destino" pra vocês! Estamos chegando na reta final!

Boa leitura!

Décima terceira carta aqui:  


DÉCIMA TERCEIRA LIÇÃO – Não Há Amor Sem Liberdade...

Depois de fazerem a escolha, foi pedido que aguardassem na entrada do hangar. Seriam os últimos a entrar e desfrutar alguns minutos da companhia do piloto. Natália perguntou se poderia entrevistá-lo durante a conversa, mantendo assim o seu disfarce de repórter e foi avisada que se o homem concordasse, poderia fazer as perguntas que desejasse. Estava trêmula, quase tendo certeza de que não conseguiria. Na verdade ainda não tinha decidido como dizer para ele, contar da ligação que os unia, fazê-lo desistir da perigosa profissão e passar a não correr mais riscos. Sabia que não seria uma tarefa fácil, mas ela tinha de ser corajosa, a vida dele estava, de certa forma, em suas mãos.
Andrew esperava entusiasmado. Nunca fora fã do piloto maluco, mas agora que começara a acompanhar a sua carreira, que aprendera sobre ele nos jornais e nas revistas, viu que havia construído uma imagem totalmente distorcida sobre ele. Antes o julgava egoísta e arrogante, agora o achava generoso e sensível, o que aconteceu depois que Andrew conheceu o trabalho que ele fazia, que não se restringia apenas ao avião, mas mantinha um orfanato inteiro com a verba arrecadada durante os eventos de que participava.  Não bastasse a ajuda financeira, ele promovia muitas atividades de lazer para aquelas crianças a quem a vida não dera, e provavelmente nunca daria, oportunidade nenhuma, e ainda fazia visitas frequentes, sempre que tinha uma brecha na agenda. Desde então, tornara-se fã, não só do seu trabalho, de arriscar a vida daquela maneira, mas também do bem que essa sua escolha causava às dezenas de crianças de quem ele cuidava.
A porta se abriu e uma das mães com um filho enlouquecido de alegria, acabava de deixar o hangar do piloto. Eles seriam os próximos. O coração de ambos queria saltar pela boca. Andrew segurou a mão de Natália com força, misturando o suor de nervosismo dos dois e fundindo suas energias e expectativas. Na outra mão, Andrew segurava o bloco de papel e a caneta que trouxera para a suposta entrevista. Uma voz pediu para que entrassem e fez Andrew tremer tanto que o pequeno bloco escorregou-lhe das mãos. Ele abaixou-se para juntá-lo, enquanto Natália já se dirigia até a porta do hangar. Andrew moveu a cabeça em direção à porta e viu de relance o piloto em seu macacão verde-musgo, o capacete azul, largado sobre uma pequena mesa redonda ao lado de um aconchegante estofado vermelho, onde seriam recebidos em um segundo. Andrew mirou o rosto do piloto e tamanho foi o arrepio que o percorreu que derrubou a caneta que segurava. Não viu aquele luminoso sorriso expresso em sua face, mas deparou-se com uma luz quase apagada, sem as cores costumeiras, como se uma força muito negativa tivesse se apossado dele. Levantou-se e entrou.
O homem era educadíssimo e foi pedindo que os dois se sentassem. Andrew escolheu a ponta do sofá, deixou que Natália ficasse mais perto dele. Ela abriu a bolsa, puxando a extensa folha na qual escrevera com antecedência as perguntas que gostaria de fazer. O homem olhou para o crachá, preso à gola do casaco de Natália e foi logo avisando que a entrevista fora marcada para logo depois do encerramento da festa e que o diretor geral o prevenira de que não devia falar com repórteres antecipadamente.
— Bem, — começou Andrew — aqui está o bilhete sorteado, se quiser pode conferi-lo. Isso nos torna aptos a estar aqui agora e, penso que é nosso direito de fãs lhe fazermos algumas perguntas.
— Sim, é claro. Se eles não concordarem com isso, então, peço-lhes que mostrem esse bilhete para eles.
— Então... é... hum... — Natália gaguejava e não conseguia ler as perguntas do papel. Seu corpo tremia e ela mal conseguia respirar. Andrew, percebendo o seu estado, tomou-lhe a folha das mãos, e começou ele mesmo.
— Bem, primeiramente, gostaríamos de parabenizá-lo pelo seu excelente trabalho.
— Muito obrigado. Espero que tenham assistido à minha última apresentação pela TV a cabo, na qual apresentei manobras inéditas.
— É, nós acompanhamos. Mas refiro-me ao seu outro trabalho, o trabalho social que faz com aquelas crianças do orfanato.
— Ah, sim. Eu não costumo dar entrevistas sobre esse assunto, como vocês devem saber. As crianças são a minha vida e não faço questão de usá-las para minha autopromoção. Espero que vocês entendam e, se quiserem falar sobre o avião e as manobras, sejam bem-vindos, caso contrário, não poderei ajudá-los. — respondeu ele, educadamente, sem ser, em momento algum, rude ou alterar o tom de voz. Andrew imaginou quantas vezes ele teria precisado sair de situações iguais àquela. Certamente estava acostumado a dar sempre a mesma resposta para os enxeridos repórteres.
— O que exatamente aconteceu com seu avião? — interrompeu Natália.
— Ainda não tenho certeza, mas acredito que tenha sido algum tipo de desgaste durante meu trajeto até aqui. A viagem foi longa e isso seria perfeitamente natural.
— Isso já aconteceu com você outras vezes? Já levou algum outro susto durante os voos?
— Sim, com certeza. Já houve muitas colisões com aves, por exemplo, o que é sempre um susto, enfrentei apagão de motores, entre outros sustos maiores. Mas acredito que tudo isso é normal perante a frequência e a quantidade dos voos.
— Você tem medo de cair?
— Não. Eu estou ciente dos riscos que corro lá em cima.
— Mas... e se você cair.. quero dizer, se for fatal... não se importa? Não pode simplesmente ignorar o perigo desta forma... — Andrew percebeu que a voz de Natália começava a se alterar. Parecia que estava se contendo para não romper em choros ali na frente do piloto.
— Eu amo voar. Sempre sonhei ser piloto, tentei entrar na Academia da Força Aérea, mas não fui tão inteligente ou estudioso quanto deveria. Como vocês também já devem saber, tive uma infância muito pobre e não pude me preparar como gostaria para todas as provas e concursos da Academia. Quando arranjei um trabalho e finalmente pude financiar um bom curso preparatório, era tarde demais. Não que a minha vontade tivesse morrido, mas simplesmente porque o tempo passa e nós ficamos velhos demais para certas coisas. As oportunidades já não são mais as mesmas. E é por isso que eu agradeço todos os dias por ter chegado aonde cheguei. Comecei minha carreira como piloto privado, pilotando jatinhos para empresários, ainda muito jovem. Assim que arranjei meu primeiro emprego, a primeira coisa que fiz foi me associar no aeroclube da minha cidade. Na época, só se pagava um valor simbólico, nada que eu não pudesse arranjar. Então comecei a frequentar os hangares do pequeno aeroporto, mas nunca encontrava alguém por lá. Não tínhamos muita coisa, apenas um ultraleve e um avião monomotor, ano 1947, todo colorido, usado apenas em ocasiões especiais, uma ou duas vezes por ano no máximo. Aquele avião era o meu maior desejo, embora um instrutor de voo que raramente eu encontrava por lá, vistoriando o pobre avião abandonado, me garantisse que havia maiores e melhores do que aquele, que ele chamava carinhosamente de Sucata. Eu sabia, já havia visto muitas aeronaves pousarem naquela pista, cada vez que tinha um dia de folga, estava eu lá no aeroporto. Mas o Sucata era para mim o melhor avião que podia existir. Nessa época eu devia ter uns 14 anos, mais ou menos e fiquei encantado com a pintura dele, eu acho.
— O Sucata era um avião como o seu?
— Não, não. Nem perto disso. Não vou citar modelo, porque percebo que a senhorita não entende de aviação, não é? Quer dizer, sem querer ofender. Mas o meu é bem diferente.
— E então, como se tornou piloto privado?
— Ah, eu esperei e esperei, até completar os dezoito anos que pareciam não chegar nunca! Tinha guardado um pouco de dinheiro para isso, mas quando questionei o velho instrutor da minha cidade sobre os valores necessários para poder me tornar piloto, foi aí que quase desanimei! O valor que tinha economizado nos meus quatro anos de trabalho, não chegava a um terço do que precisava! E ainda por cima, o curso era dado somente em uma cidade vizinha, o que me traria mais problemas e despesas com transporte. Naquele dia voltei pra casa realmente desanimado. Pensei em desistir, cheguei a pensar que jamais conseguiria. Ainda bem que o meu pai, comovido com a minha depressão, me explicou que o curso era dado em etapas. Dessa forma eu poderia frequentar as aulas teóricas e deixar as práticas para mais tarde, quando conseguisse juntar mais algum dinheiro. Foi o que eu fiz. Fui aprovado com notas muito boas nas aulas teóricas, mas tive que adiar as práticas. Depois de muita negociação, eu e meu pai conseguimos um financiamento, um parcelamento especial, e eu finalmente criei asas! Lembro-me do meu primeiro voo como se fosse hoje! Meu pai saiu mais cedo do trabalho só pra me assistir! Foi maravilhoso, devo tudo a ele. Se não fosse por ele, com certeza eu não estaria aqui hoje.
— Seu pai deve estar muito orgulhoso de você.
— Ele não pode mais. Morreu sem ter tido chance de ver minha primeira manobra.
— Sinto muito. — disseram ambos, um de cada vez.
— Obrigado. Mas ele morreu feliz. Acho que o seu maior sonho era ver-me voar e fico feliz que ele tenha conseguido isso antes de morrer. Talvez ele não concordasse com o que eu faço agora, não é mesmo?
— Então por que você continua correndo riscos? Se você sabe que o seu pai não aprovaria isso?
— Eu não sei se ele aprovaria ou não. Mas, como eu disse, eu amo a aviação, e não é fácil sobreviver ganhando salário de piloto privado. É preciso buscar mais, eu estou consciente dos riscos, mas há outras pessoas que dependem de mim. Não posso decepcioná-las. Se eu morrer, ficarei para sempre no ar, estarei feliz, porque estarei onde eu sempre quis estar. Estou realizado com a minha profissão e com a minha vida.
— E quanto a sua mãe? O que ela pensa disso?
— Ela se preocupa, sim. Que mãe não se preocuparia? Mas ela respeita minha vontade e apoia minha decisão, porque ela, mais do qualquer outra pessoa, me ama de verdade. E o amor verdadeiro é isso: respeito e liberdade.
— Por isso você nunca se casou?  — arriscou Andrew.
— Pode ser que sim. Não necessariamente. Mas, mudando de assunto, vocês não anotaram nada do que eu lhes contei. Querem ou não uma entrevista?
— Oh... é... eu... — ninguém sabia como responder. Natália queria contar toda a verdade de uma vez, mas sabia que Andrew não aprovaria e nada lhe garantia ainda que o piloto não os expulsaria dali imediatamente, e ela ainda não tinha dito o que queria.
— Bem, fica apenas como uma conversa entre fãs e ídolo, — o piloto mesmo respondeu.
— Desculpe, é que estamos começando nossas carreiras agora, isso foi apenas um teste para o novo emprego, mas acho que não fomos muito bem, não é?
— Ah, é. Acho que acabaram de perder a vaga. Se a missão era arrancarem uma entrevista minha, podem se considerar desempregados. — Todos riram pelo tom de brincadeira do piloto — Vocês ficarão na cidade esta noite? Podem me dar o endereço do seu hotel? Mandarei uma entrevista pronta, que deverá ser o suficiente para assegurar seus empregos.
— Oh, é claro. Aqui está o cartão com o endereço. Muito obrigado, senhor... — agradeceram e saíram. O tempo havia acabado. Natália ainda tremia, mal conseguia apoiar-se sobre as pernas. Andrew estava feliz, embora a ausência de cor e luz naquele homem o tenha assustado um pouco. Isso só poderia significar uma coisa: ou a sua hora estava chegando, ou Andrew ainda não aprendera a ler as auras das pessoas.
— Andrew, que história foi aquela de dar pra ele o endereço do hotel? Você acha mesmo que ele vai nos mandar uma entrevista completa? Pobre homem! Não me sinto bem por ter mentido pra ele! E se ele procurar a tal entrevista nos jornais e não encontrar nada? O que será de nós?
— O máximo que pode acontecer é ele pensar que a entrevista não estava boa e por isso, continuamos desempregados.
Ela não respondeu. Partiram de volta ao hotel, onde passariam a noite. Voltariam para casa na manhã seguinte. Natália relembrava a conversa e sentia-se idiota porque fizera tudo errado. Tinha planejado aquele encontro milhares de vezes e, no entanto, nenhuma única palavra saíra conforme o planejado. Mesmo assim valeu a pena. Ela se lembrava da voz suave dele, que também lhe parecera muito familiar, até mais do que a aparência e o sorriso largo e gentil. Reparou em cada detalhe, na fisionomia, em cada palavra escrita em seu uniforme, era até capaz de adivinhar a marca que o produzira. Agora, recriava a cena como ela gostaria que tivesse acontecido, como poderia ter agido e o que poderia ter dito, mas deixara de dizer. Tanto sacrifício para conseguir aqueles minutos em sua companhia e de nada lhe fora útil. Ela não conseguira e nem tentara convencê-lo de que aquilo tudo era uma grande loucura, que não precisava fazer aquilo... Ele antecipou-se, dizendo que outras pessoas dependiam dele. Seria a mãe? As crianças do tal orfanato? Era claro que sim.
Ela não pregou os olhos para descansar, conforme Andrew aconselhara. Ele que dormira o resto da tarde, agora sentou-se ao lado da cama de Natália, sem dizer uma só palavra, apenas pensando, e observando-a mais uma vez decepcionada. Ela mantinha o olhar distante, fixado na parede branca a sua frente. Estava tão concentrada em seus pensamentos, que quase não percebeu a aproximação de Andrew. Ele chegou a pensar que ela entrara mais uma vez em transe profundo, mas logo afastou a ideia, pois seus olhos estavam abertos e ela suspirava de vez em quando. Ele sabia exatamente o que ela estava sentindo, ele mesmo perdera as contas de quantas vezes no decorrer de seu caminho se sentira da mesma forma. Era uma sensação de fracasso misturado à impotência por não poder mais mudar o que já estava feito.   E isso tinha um termo próprio: arrependimento. Arrependimento por ter feito ou deixado de fazer algo ainda maior e mais importante. Essa era uma grande dor, que todos carregavam ou iriam carregar algum dia na vida.
— Não fique assim, querida. Teremos outras oportunidades. Você terá tempo para pensar melhor sobre o que dizer na próxima vez e...
— Próxima vez? Você acha que vai haver uma próxima vez? Essa vez já foi um milagre, seria muita pretensão esperar que houvesse outra. Devo admitir que você teve sorte, Andrew, mas a sorte não sorri  duas vezes...
Nunca diga nunca, diz o ditado. Você está sendo pessimista e isso não é nada bom. O pensamento tem muita força, as palavras que dizemos também. Por isso é melhor começar a mentalizar seus desejos, os que você quer que se realizem e não os que você quer afastar. A mente pode funcionar mais ou menos como um ímã, pode atrair o que você pensar intensamente, sejam coisas boas ou ruins. Por isso é que às vezes ouvimos aquela famosa frase: “por que eu?” ou “por que tinha que acontecer comigo?”. Eu vou dizer o porquê: as pessoas tendem a pensar principalmente no que lhes causa medo. Isso é natural a todos os seres humanos. Alguém que teme sofrer um acidente, por exemplo, se cada vez que entrar em um carro, mentalizar o acidente, pode atraí-lo para si, simplesmente porque  pensou nisso com força, você entende? O universo conspira sempre em função dos nossos desejos. Os amores impossíveis tornam-se possíveis por isso. As paixões, das quais falamos outro dia, também podem ser um bom exemplo dessa força de vontade. A pessoa, quando apaixonada, fica mais forte que o mundo todo, porque ela deseja de verdade, e esse desejo geralmente resulta no alcance do seu objetivo. O seu aviador é também um bom exemplo disso.
— Ele é?
— É sim, pelo que ele contou já deu para perceber isso. O desejo de voar e a paixão acabaram por levá-lo para o caminho que sempre almejara. Mas é lógico que só o pensamento não é o bastante. É preciso aliar pensamento à ação. E é por isso que eu acho melhor você sair logo dessa cama, vestir uma roupa bem bonita e sair comigo para jantar. Essa conversa já está me dando fome! — Natália riu, e foi arrumar-se para o jantar.
Andrew desceu até a pequena recepção, onde esperou pacientemente enquanto tentava puxar conversa com o recepcionista mal-humorado. De tanto insistir para que ele lhe falasse sobre os pontos turísticos da cidade, o rapaz abaixou-se atrás do balcão e reapareceu com um punhado de folders que entregou ao insistente hóspede. Depois sentou-se na banqueta alta atrás do balcão, enfiando a cabeça nos livros de registros. Andrew o deixou em paz. Dirigiu-se até uma pequena poltrona, colocada de propósito em frente à porta de entrada, carregando consigo todos os folders que mostravam os atrativos turísticos do lugar. O primeiro falava de um resort de alto padrão, recheado de atrações para turistas que gostavam de conforto e podiam pagar por ele. O segundo trazia fotos de um parque de esportes radicais, que reunia arvorismo, escaladas, trilhas, entre outras atividades que exigiam um bom preparo físico. Cada folder lido era descartado e colocado em uma pequena pilha que Andrew organizava em um canto do sofá.
Alguém acabara de entrar no hotel e estava sendo atendido pelo mal-humorado recepcionista à beira do balcão. Andrew não ergueu a cabeça para vê-lo ou sequer ouvir o que eles conversavam, até que uma única palavra do homem lhe chamou a atenção.
— Tem certeza de que são repórteres? Não me lembro de ter visto algum repórter por aqui. Também não anoto as profissões de cada hóspede nas fichas de registro do hotel e, infelizmente, não posso identificá-los para o senhor.
— Mas este cartão é daqui, não é? O endereço é este mesmo, eles têm de estar hospedados aqui. O senhor tem certeza de que não os viu?
—Ah, meu amigo, muitas pessoas entram e saem daqui todos os dias. Como eu poderia me lembrar de todos? Se o senhor soubesse pelo menos o nome de um deles, eu poderia procurar nas fichas de cadastro, mas sem isso é impossível.
Andrew ouviu o homem suspirar e lembrou-se imediatamente da promessa do piloto de enviar-lhes uma entrevista pronta. Virou-se para ver se era mesmo alguém do aeroclube, que poderia muito bem ter vindo entregá-la, mas homem já caminhava para a saída e Andrew teve de interrompê-lo, ainda em dúvida se deveria ou não se identificar como repórter, ou apenas dizer que o conhecera nos corredores do hotel, e que podia entregar-lhe a encomenda. O homem deu meia volta, atendendo ao chamado de Andrew. Para sua surpresa, viu que ele não era nenhum doa membros do aeroclube e tampouco um dos organizadores do evento, mas o piloto em pessoa. Como pôde não reconhecê-lo pela voz?
Ele cumprimentou-o com um forte aperto de mão. Quando ia perguntar por Natália, a porta do elevador se abriu e ele olhou-a sem ter certeza se a mulher que dali saía era mesmo ela. Mas antes que pudesse perguntar, ela veio na direção dos dois, olhos fixos nos seus, cabelos esvoaçantes, que se emaranhavam com o vento que encanava da porta de entrada até o hall do elevador e inundava toda a recepção.
— Bem, eu trouxe o que vocês precisam. Aqui está uma entrevista completa, inédita, escrita por meus assessores de imprensa para ocasiões em que não tenho tempo para conversar com os repórteres, como vocês dois. Eu espero que seja o bastante para assegurar seus empregos.
— Ah, sim! É claro... vai sim...
—Vocês estão de saída? Posso convidá-los para jantar?
— Jantar? Bem... é... eu... — Natália não conseguia formar uma frase sequer. E também não sabia se deveria aceitar o convite. Era muita coincidência que ele tivesse vindo pessoalmente lhe entregar a entrevista e mais ainda aquele convite inesperado. Teria vindo de caso pensado? Ela não sabia e não conseguia organizar seus pensamentos, reunir os que faziam sentido e deixar de lado os que eram, de fato, sua imaginação satisfazendo seu ego.
— Na verdade eu já jantei, mas ia acompanhar Natália até um restaurante, porque ela ainda não jantou, sentiu-se indisposta depois da festa. Mas confesso que estou exausto, então se você prometer trazê-la de volta sã e salva...
— Andrew?! Eu...
— Não tem problema, querida. Pode ir tranquila, eu ficarei bem e aproveitarei para descansar. Vão e aproveitem o jantar. — olhou para o piloto, dando uma piscadela com um dos olhos — Vê se cuida bem dela, heim!
— Pode deixar, eu cuidarei! — respondeu ele no mesmo tom divertido, batendo continência para Andrew.
Natália tremia da cabeça aos pés. Sentia-se uma completa idiota, não conseguia dizer nada, apenas respondia ao que ele perguntava, o mais formalmente possível. Deveria ter recusado o jantar, mas Andrew a induziu de tal maneira que não teve como recusar. Teriam combinado tudo? Impossível! Andrew não ficara com ele um minuto sequer sem ela. Então por que ele viera? Tê-la-ia reconhecido das vidas passadas, como era de se esperar? Se fosse verdade, ele não dera, e dificilmente daria, algum indício. Sentira-se atraído por ela? Não podia ser, no meio de tantas fãs... Mas, afinal, não era exatamente isso que ela quisera desde o princípio? Chamar a atenção dele, ter uma oportunidade como aquela que agora se apresentava diante dela, sem que tivesse precisado mover um músculo? Não deveria estar agradecendo aos céus por tê-lo posto em seu caminho justamente quando ela se preparava para desistir? Sim era isso que ela pensava, mas o nervosismo certamente estragaria mais essa oportunidade. Ela não podia explicar o porquê, mas estava sofrendo ao lado daquele homem. Sofria por que o amava. Um amor indescritível, capaz de atravessar todas aquelas vidas, e superar a morte. E agora, tendo-o tão perto, sentindo o seu cheiro, o calor do braço dele tocando no seu, olhando-o nos olhos sentia-se fraquejar.
Numa fração de segundo, viu-o morrendo diante dos seus olhos. Toda a dor, toda a agonia e a impotência tornaram à sua memória e ao seu coração bem como a vontade de nunca mais deixá-lo. Enquanto ele adiantou-se para escolher a mesa em que se sentariam, ela o observou atentamente, calça preta, camisa azul, casaco de lã, mas o mais importante, a sua marca, era o lenço que trazia no pescoço, de seda azul e verde com pequenos aviões amarelos estampados. Ela teve a nítida impressão de já tê-lo visto antes. Reviveu as cenas de regressão. Não. Não havia um lenço como aquele em nenhuma delas. Mas era muito familiar. Dentre todas as coisas, o que mais doía era o seu sorriso. Espontâneo, sensual, perfeito. Ela sabia que aquele sorriso ficaria marcado nela para sempre, e como lhe restava tão pouco tempo, não seria o suficiente para esquecê-lo.
Sentaram-se. Ele escolhera uma pequena mesa em um canto reservado, onde teriam mais privacidade e menos barulho para poder conversar. Olhos nos olhos, mais uma vez. Natália desviava o olhar. Doía, e ela não queria que ele visse aquela dor. Ela ansiara tanto por esse momento, tanto que nem ousara pensar nele dessa forma, como estava acontecendo. Ele escolhera o vinho, mas para ela, pedira também água mineral, caso não bebesse. O garçom enchera as duas taças. Ela, impulsivamente, bebeu o vinho de uma só vez. Ele se surpreendeu, achou curioso e sorriu mais ainda. O garçom encheu-lhe a taça novamente, mas agora ela sequer a tocou, envergonhada pelo ato anterior.
— E aqui está. — disse ele apenas, esticando o braço sobre a mesa, estendendo-lhe um envelope branco. Ela olhou-o sem entender. Ele explicou de que se tratava, seu emprego, mas ela nem pensara nisso, não recordava da mentira, tão emocionada estava.
— Vamos, abra e leia. Quero que me diga o que achou. Tentei fazer algo diferente, o mais exclusivo possível. Queria lhe garantir a vaga no jornal.
— Oh! Obrigada, eu nem sei como agradecer...
— Então não agradeça. — respondeu ele, mais um largo sorriso no rosto. Ela abriu o envelope, não estava lacrado ou colado, retirou as duas folhas, digitadas, mas cheias de observações manuscritas, acrescentadas por ele para garantir a exclusividade da entrevista. Leu-as devagar, tentando prestar atenção a cada palavra, principalmente às que ele escrevera de próprio punho, porque acreditava que um pedaço da sua alma estava se revelando a ela naquelas linhas. Ela mesma mantivera um diário durante alguns anos da adolescência, mas desistira justamente porque pensava que quem o lesse conheceria sua alma e poderia sentir qual era sua verdadeira essência, assim como ela decifrava as almas dos escritores aos quais lia e conhecia o seu âmago. Por mais distintas que pudessem ser as obras de um mesmo escritor, a essência era sempre a mesma e sempre um pedaço da alma ficava presa em suas palavras.
— E então, o que achou? Dá pra segurar aquela vaguinha no jornal?
— Oh! Sim... está muito boa... está ótima...
— Que bom! Não se esqueça de me enviar um exemplar do jornal, heim!
— Mandarei. — disse ela apenas. A cada palavra dele, a cada insinuação, a mentira pesava na alma de Natália. Como desejava contar-lhe toda a verdade de uma vez. E se fizesse isso, agora mesmo? Estava certa de que, quanto mais o tempo passasse, quanto mais ela demorasse pra contar a verdade, menor seria a chance de ser perdoada por ele. Agora ele não sofreria tanto, apesar de uma mentira ser sempre uma mentira, mas se a amizade perpetuasse, como ela gostaria, então seria doloroso descobri-la. Por outro lado, seria bem mais fácil para ela contar-lhe toda a verdade sob o disfarce de repórter. Poderia dizer que a vaga que pretendia era em uma revista exotérica e que, por isso, precisava interrogá-lo sobre suas crenças religiosas. Ele contaria algo que a ajudasse a encontrar o caminho certo, o ponto de que ela precisava para despejar a verdade sobre ele, finalmente. Era uma ideia meio idiota, mas ela não tinha muitas opções.
— Eu poderia acrescentar mais algumas perguntas ao questionário, se permitir. Na verdade a vaga pela qual estamos disputando, não é exatamente em um jornal, mas sim em uma revista semanal. Uma revista exotérica.
— Exotérica?  E o que uma revista exotérica pode querer saber de mim?  
— Ora, você desafia a morte todos os dias naquele avião. É normal que as pessoas queiram saber o que pensa sobre a morte e depois dela.
— Então tá! Eu penso que depois da morte nós viramos pó, poeira mesmo. Não acredito nessas historinhas de céu e inferno que nos contam desde crianças. Eu acho que o importante é o que fazemos aqui na Terra mesmo, enquanto ainda podemos. Depois não há mais nada. Só o vazio.
— E, se alguém pudesse lhe provar que está enganado? Se lhe provassem que esta não é a sua única chance aqui na Terra, se lhe mostrassem que já houve muitas outras chances pra você?
— Não acho que seja possível. É claro que eu já ouvi falar em espiritismo, é a isso que se refere?
— Não exatamente. Refiro-me a regressões. Feitas em consultórios, com profissionais especializados e não em centros espíritas.
— Profissionais espíritas especializados, é o que quer dizer.
— Não necessariamente. Falo de ciência, não de religião.
— Ciência? Mudou de nome, então? Perdoe-me, não quero parecer grosseiro, mas não tenho nada a acrescentar a sua entrevista, senão algo sobre o meu trabalho. Eu realmente não gosto de falar em assuntos religiosos, realmente respeito a opinião  e a escolha de cada um, mas isso não é para mim. Então creio que não poderei ajudá-la. Nem vida pessoal, nem religião. Apenas trabalho, se lhe for útil.
— Certo, entendi. Mas nem ao menos extraoficialmente, apenas para matar minha curiosidade?
— O que me garante que não vai publicar?
— Se eu lhe contar um segredo, você o guardará para si? — ele fez que sim com a cabeça — Eu não sou, nem nunca fui repórter. Não estou disputando vaga em revista alguma. Desculpe.
Ela estremeceu ao pensar que acabara de perder a confiança recém-conquistada. Mas o vinho fizera efeito e ela não pôde se conter. De qualquer forma, estava escrevendo o seu destino, optara pela verdade. Agora estava pronta para arcar com as consequências. Ele a expulsaria? Não, porque era educado demais para isso, um verdadeiro cavalheiro. Mas quem sabe abreviasse o jantar e se despedisse para sempre. Natália sentiu uma pontada no peito, não podia perdê-lo logo agora que o encontrara. Estava disposta a fazer o que fosse preciso, implorar, ajoelhar-se a seus pés, estava beirando o desespero. Insistiria e o seguiria pelo resto da vida se fosse preciso, até que ele acreditasse na verdade que ela revelaria. Esperou uma resposta, mas ele apenas bebeu um grande gole de vinho, empurrando a verdade goela abaixo.
— Eu vim até aqui por outro motivo... — Ele nada dizia ou perguntava, apenas olhava-a nos olhos. Agora sem o embaraço inicial, mais solta e verdadeira, continuou — Tenho o seguido durante algum tempo, talvez não tenha percebido. Mas nunca consegui chegar nem perto. Então Andrew teve a ideia de fingir que éramos da imprensa. Foi a única maneira que encontramos, pelo menos parecia ser a única que fazia algum sentido. Você deve estar pensando que sou uma daquelas fanáticas malucas que o esperam e o seguem por aí, mas lhe asseguro que não sou.
— Eu não havia pensado nisso — ele disse, em fim, aliviando-a, porque nada era pior do que o silêncio — mas isso seria mais plausível. Agora você esta me assustando. Não tenho medo das garotas que me seguem por todos os lados, como você disse, elas são inofensivas, são adolescentes desesperadas, que ainda não sabem o que é o amor e que apenas confundem admiração com amor. Elas gostam do meu trabalho e sonham comigo, mas é só isso. O máximo que podem fazer é arrancar alguns autógrafos e algumas fotografias junto comigo. Quem sabe alguns beijos? Mas nunca passou disso. Mas você é diferente. Uma mulher, não uma adolescente desesperada. Não que eu nunca tenha tido fãs mais maduras, nem que eu a esteja chamando de velha, absolutamente, mas você é diferente. O que quer de mim?
— Eu quero que você... — ela ia pedir que parasse de voar, mas lembrou-se do que ele dissera lá no hangar, horas atrás, do amor que sentia, da necessidade de outras pessoas, não seria justo — Eu quero que se cuide. Temo que algo muito ruim lhe aconteça.
— Algo ruim? Minha mãe teme também, mas eu a entendo porque ela é minha mãe. Mas você é uma desconhecida! Veio de tão longe pra pedir que eu tome cuidado? Por quê?
— Porque temos algo em comum. Embora você não acredite, compartilhamos algumas vidas. Eu sei que você deve estar pensando que sou louca, mas eu sequer sabia que você existia, quando descobri que me resta pouco tempo de vida. Então procurei tratamento, por causa de um pesadelo que me afligia, e ainda aflige, há meses. Fiz várias regressões e você estava lá.
— Eu? Tem certeza? Você pode ter me visto por aí e associado a minha imagem à pessoa que viu, não pode? Pode ter ficado impressionada com as minhas manobras e pensado em mim durante as regressões, certo? Tem muitas explicações racionais para isso. Você não tem como afirmar se realmente era eu, tem?
— Olha, eu sei que é difícil, é inacreditável. Na verdade eu nem sei por que estou lhe contando essas coisas. Eu acho que é melhor eu ir embora.  Desculpe, mais uma vez. — disse ela, secando mais uma vez a taça com o vinho. O garçom tornou a enchê-la.
— Não, de maneira nenhuma! Já que veio até aqui para isso, não permitirei que volte sem terminar de me explicar essa história toda!
— Eu estou enganada, com certeza. Como posso tê-lo reconhecido, se nunca saí da minha cidade natal, e se você só esteve lá uma única vez, e foi recentemente? Eu devo estar mesmo ficando louca, mas eu vi você passando em frente à sorveteria, a única sorveteria do centro da cidade, alguns dias antes do espetáculo. Acho que era outra pessoa... Mesmo assim, eu o associei a você e acabei reconhecendo-o como o homem com quem eu sonhei durante todas aquelas noites consecutivas, não é espantoso? Então comecei a gastar todo o meu dinheiro, o dinheiro que guardei com muita dificuldade para ajudar a minha família, procurando aquele homem, para tentar salvar-lhe a vida, porque eu o amo, porque não suportaria perdê-lo mais uma vez! — ela já não sabia se estava sendo irônica com ele, ou se queria mesmo acreditar que estava ficando maluca. Seria bem melhor se ela se convencesse que se enganara e pudesse sair da frente dele, voltar para casa, cuidar da sua saúde e esquecer aquela loucura. Uma lágrima brotou no canto dos olhos. Ela levantou-se, tonta pelo vinho, dirigiu-se à toalete para se recompor. Ela estragara tudo, mas de certa maneira, seria melhor assim. Voltaria para a mesa, pediriam o jantar e depois se despediria dele, por mais que lhe doesse. Estava decidido.
— Eu estive mesmo em sua cidade antes, para negociar os termos contratuais. Lembro-me de ter caminhado pelo centro da cidade e vi sim, um casal se divertindo na calçada da sorveteria. Era você! É verdade o que disse? — perguntou ele, para sua surpresa.
— Verdade? Eu já nem sei. Queria muito que não fosse verdade. Preferia que não passasse de um sonho. Se eu pudesse desfazer o passado...
— Não falo do passado, falo do presente. É verdade o que disse?
— O que eu disse? Que tenho muito pouco tempo de vida? É verdade sim.
— Não isso. É verdade que me ama? Você viajou até aqui, fingiu ser repórter para poder falar comigo, correu todos os riscos para me pedir que tome cuidado?
— Bem... eu ... eu... — ela balbuciou encabulada com a pergunta tão direta. Fez que ia levantar-se para ir embora, mas para sua surpresa, ele segurou-lhe o braço, impedindo-a de sair. Ela sorveu a terceira taça de vinho. Acomodou-se tentando relaxar.
— Conte-me tudo desde o início, — pediu ele — quando tudo começou.
— Como disse, eu tinha sonhos estranhos há muito tempo... — ela contou-lhe tudo. Desde o primeiro pesadelo, até este jantar. Contou tudo, alternando as palavras e os goles de vinho. Já estava praticamente embriagada e, quando o garçom tentou encher-lhe a taça novamente, foi impedido pelo piloto, e trocou-a por uma taça bem maior, desta vez cheia de água. Ela não protestou. Continuou a contar cada sensação, cada sentimento, cada paisagem que vira nas seções de regressão, inclusive sugeriu que ele procurasse o terapeuta/hipnólogo também. Chorou, sorriu, tornou a chorar. Finalmente, contou-lhe do medo que tinha de perdê-lo, de vê-lo morrendo mais uma vez e de não ter tentado impedir. Falou do seu egoísmo, porque na verdade, preocupava-se com a dor que sentiria e nunca com a dor que seria para ele deixar de voar. Segurou-lhe as duas mãos e beijou-as. Ele não tentou impedi-la, ela as apertava com força, como se não fosse mais soltá-lo, mas ele precisava escolher o jantar, visto que ela não estava mais em condições de fazê-lo, então afastou-lhe as mãos.
Era tarde, entraram na madrugada sem se darem conta. Ele teria um dia agitado, mas não podia deixá-la naquele estado. Depois de todo aquele vinho, era notável que não estava acostumada com bebidas alcoólicas, e o jantar não caíra bem. Ela mal conseguia manter-se em pé. Ele não ficara zangado, na verdade, achou graça. Chamou um táxi e levou-a consigo para o seu hotel, bem menos modesto do que o dela. Prometera que cuidaria bem dela e era isso que faria. Deixou uma lista com alguns remédios na recepção e pediu que os comprassem e entregassem no seu quarto. Subiram pelas escadas, ela dissera estar enjoada e o elevador poderia fazer com que piorasse. Ela foi direto ao banheiro. Precisava pôr para fora o que lhe fizera tanto mal. Ele insistiu para que tomasse um banho frio, ela resistiu, queria ir embora, mas finalmente ele a convenceu. Depois de algum tempo ela sentia-se melhor. Ele deitou-a em sua cama, teriam tempo para conversar pela manhã. Sentou-se na cabeceira do leito e observou-a, correndo os dedos pelos cabelos longos até que adormecesse.
O dia amanheceu e o sol brilhava, como na tarde anterior. Ele tinha de sair cedo, precisava consertar o motor do avião, pois havia uma agenda movimentada pelos próximos dias, não poderia ficar e esperar que ela acordasse. Providenciou para que lhe servissem o café da manhã no quarto e deixou um pequeno bilhete ao lado do travesseiro, pedindo que o esperasse. Antes de partir, olhou-a mais uma vez, tendo quase certeza de que não estaria mais ali quando retornasse, e deu-lhe um beijo na face. Ela se mexeu, preguiçosamente, ainda entre o sono e a lucidez. Ele saiu antes que despertasse totalmente.
Natália pensou ter sentido o beijo, antes de abrir os olhos e ver que ele não estava mais ali, então se convenceu de que fora apenas uma impressão. Seus sentidos lhe pregando peças mais uma vez, o desejo falando mais alto do que a razão. Buscou na memória as lembranças da noite passada, não conseguiu reuni-las coerentemente. Lembrava-se de parte da conversa, até quando ela resolvera contar a verdade e começara a expor a dura verdade, depois disso apenas uma nuvem negra, um buraco vazio e um garçom enchendo a taça de vinho. O que fizera? O que dissera? Um frio percorria-lhe o estômago, enquanto imaginava tamanho fiasco. Não era definitivamente para ter sido assim, mas se não fosse, ela teria tido coragem? Não sabia ao certo, mas isso já não tinha mais importância. O que importava agora era a reação dele, o que teria feito? Olhou em volta, ainda não havia se dado conta de que estava despida. Passaram a noite juntos? Mais uma dor, desta vez mais aguda ainda, atravessara-lhe o peito, como uma lança a transpassar o coração. Se tivessem mesmo passado a noite juntos, isso acabava de vez com seus planos, então teria que ir embora, afastar-se dele de uma vez, evitando assim, o sofrimento que a perda de um causaria ao outro. E era sabido que a perda viria. Na melhor das hipóteses, ele não se acidentaria, mas isso não isolava o fato de que, mais cedo ou mais tarde, o aneurisma se romperia, e era ela quem teria que partir.
Virou-se na cama em busca do telefone, precisava ligar para Andrew o quanto antes, já que perderam o ônibus da manhã por causa do seu atraso. Ele deveria estar muito preocupado. Havia um pedaço de papel sobre o travesseiro ao lado. Natália tremeu, porque isso era típico dos amantes, e tudo o que ela não precisava agora era ter um caso. Desdobrou com cuidado a pequena folha e leu a mensagem “O seu café da manhã será servido no quarto e as suas roupas serão entregues, limpas e passadas pela lavanderia do hotel. Há alguns remédios no quarto, caso precise. Por favor, não vá embora antes que eu volte. Beijos!” na qual ela reconheceu a caligrafia de imediato. Era maravilhoso ler cada uma daquelas palavras, maravilhoso e preocupante. Ou nada tinha acontecido entre os dois, e ele acreditara nela e pedira que esperasse para poderem conversar melhor, ou eles passaram a noite juntos e ele, cavalheiro que era, não quis dispensá-la ainda (ao menos antes de se despedir). De qualquer forma, seria um tormento esperar. Olhou em volta, além do travesseiro com o bilhete, viu que as roupas já estavam penduradas ao lado da cama, muito bem dispostas dentro de sacos de lavanderia. O café já estava em uma bandeja, posta no centro da pequena mesa de cabeceira, e ainda podia-se ver a fumaça saindo da xícara de porcelana, espalhando um suave aroma por todo o quarto. Agarrou o telefone, discou o número de Andrew, que atendeu prontamente ao primeiro toque.
— Andrew? Sou eu, desculpe-me por ontem à noite. Eu já estou indo pra aí, já comprou as novas passagens? Eu sei que devia tê-lo avisado ontem de que não voltaria para o hotel, mas bebi um pouco além da conta e... — ela falava sem parar e ele teve de interromper.
— Calma, calma, não se preocupe comigo! Ele me avisou que você estava no hotel dele e que estava tudo bem. Aliás, estamos tentando dar um jeito no motor do avião, sabia? Ele me deixou acompanhá-lo, agora há pouco, quando passou no hotel para me dar notícias suas pessoalmente. E então, como foi a noite? — perguntou Andrew em um tom de brincadeira, que sempre usava quando queria zombar dela.
— Ora, Andrew! Como poderia me lembrar, depois de tamanha bebedeira? — ela respondeu no mesmo tom — Mas acho que consegui o que queria. Contei a verdade. Era só o que eu podia fazer, não é? Agora só me resta esperar pra ver qual será a reação dele.
— E você ainda tem dúvidas quanto a isso? Ele está muito tranquilo, Natália. Contou-me que lhe deixou um bilhete, pedindo que o esperasse. Mas acho que, na verdade, só me trouxe com ele pra ter mais um motivo para encontrá-la mais uma vez. Ele sabe que não vai esperar por ele. E, se eu a conheço, não vai mesmo!
— É, eu já estou voltando para o nosso hotel. O que mais ele contou?
— Nada. O que mais haveria para contar?
— Eu não me lembro. Parece que apaguei tudo o que veio depois de eu despejar toda aquela história em cima dele. Pensei que nem me ouviria, na verdade estava esperando que me enxotasse ou que me achasse louca e fugisse. Mas não... ele ouviu tudo até o final, e ainda por cima, me trouxe pra cá. Agora eu não sei mesmo o que aconteceu...
— Se aconteceu o quê?
— Você sabe... Se aconteceu algo entre nós dois esta noite.
— Ah! Pode ficar tranquila. Ele me disse que velou seu sono durante toda a noite. Pelo jeito você capotou depois de um banho gelado, não é? Ele falou a verdade, eu sei porque vi a verdade nos olhos dele. Não aconteceu nada entre vocês.
Natália respirou aliviada. Seria melhor assim, desta forma ela poderia fingir que se lembrava de tudo. Então agora, por que não fazer o oposto do que ele pensara? Como Andrew comentou, ele o levara porque sabia que ela iria embora, mas e se não fosse? Podia ficar e surpreendê-lo, mudar o destino, provar que era diferente da louca que ele conhecera no dia anterior. Olhou o relógio, constatou que dormira mais do que gostaria. Estava quase na hora do almoço, e ele deveria estar chegando para buscá-la. Saberia que, se ela não estava no seu hotel quando levasse Andrew de volta, teria ficado a sua espera. Não a deixaria esperando por muito tempo. Levantou-se e foi para mais um banho, só que desta vez, com uma gostosa água morna. Vestiu-se, passou um pouco de batom, a única maquiagem que carregava na bolsa, e que não seria o suficiente para disfarçar as olheiras e os sinais da ressaca. A cabeça doía um pouco, mas ela encontrou o remédio sobre a mesinha de cabeceira, serviria para aliviar os sintomas causados pelo excesso de vinho.
Depois de pronta, sentou-se aos pés da cama e esperou pouco mais de dez minutos até que a porta finalmente se abrisse. Ele vestia uma calça esportiva e uma jaqueta, usava um boné com seus emblemas bordados em verde musgo, que combinava com seu macacão de piloto. Estava igualmente lindo, e sorria ternamente para ela, que desviava o olhar, envergonhada. Mostrou-se surpreso por encontrá-la, mas parecia satisfeito. Ela nem precisava esperar ele falar, já podia ouvir a voz macia, que parecia conhecer há anos, era uma das suas mais fortes lembranças. Perguntou se estava sentindo-se melhor, se tomara os remédios, o café que ele lhe deixara. Banalidades que eram demais importantes para ela, significavam que ele se importava. Talvez não exatamente com ela, mas com as pessoas, que havia algo muito humano nele, um amor muito maior do que ela imaginava, o amor que ele nutria pela vida. Teria agido assim com qualquer pessoa? Ela tinha certeza que sim, porque via o amor brilhando nos olhos dele.
— E então? Vamos almoçar? — perguntou finalmente. Ela insistiu que não estava com fome e que ainda não se recuperara completamente da bebedeira da noite anterior, e ele então sugeriu que pedissem algo para comer ali mesmo.
— Será até melhor, teremos mais tempo e privacidade para conversar. Vou pedir alguma coisa para nós dois.
— Oh, não se preocupe comigo, eu...
— Você precisa se alimentar, ou este mal-estar não vai passar. Pode deixar que pedirei algo bem leve pra você. Garanto que depois de comer você se sentirá muito melhor. 
— Está bem. — aceitou ela, e procurou mudar logo de assunto — Como foi a sua manhã? Conseguiu dar um jeito no motor do avião?
— Na verdade, não. Mas já chamei uma equipe especializada para cuidar dele. Creio que em breve estarei no ar de novo. Levei o seu amigo Andrew comigo, achei que ele gostaria de dar uma olhada no avião, de perto. Ele ficou empolgado, disse-me que até arriscaria uma voltinha comigo por aí! E você?
— E eu o quê?
— Também arriscaria dar uma voltinha comigo?
— Se dependesse de mim você jamais entraria naquele avião. — disse ela baixinho. Ele não respondeu, sabia que ela não tivera a intenção de magoá-lo, mas mesmo assim o fez. Ele estava acostumado a ser admirado, sentia-se amado cada vez que voava e ela era a primeira pessoa que ia contra o seu trabalho. Talvez por isso ele a via de maneira diferente das outras pessoas, talvez esse tivesse sido o principal motivo pelo qual ela estava ali agora. Qualquer uma de suas fãs, por exemplo, não teriam tido a menor chance de receber dele um convite para um jantar, muito menos de passar a noite em seu quarto. Ela, no entanto, conseguira mais do que isso. Chamara a atenção dele de uma maneira totalmente nova e desconhecida, que ele não acreditava ser uma ligação espiritual, ou uma herança de outras encarnações, e que não podia ainda explicar o que era. Nem sabia direito se acreditava ou não em vida após a morte ou qualquer outra filosofia religiosa. Não era mesmo muito apegado à religião, ao menos não da forma como era imposta nas igrejas. Para ele a religião consistia apenas no amor e no bem. O amor que pudesse sentir pelos seus semelhantes e o bem que pudesse fazer a eles. Esse era o seu Deus e não havia espaço para as demagogias das igrejas e suas promessas impossíveis de eternidade e paraíso.
 — Perdoe-me, eu não quis dizer isso.
— Mas é isso que você sente. Podemos conversar mais uma vez sobre tudo o que me contou ontem? Desde o princípio. Por favor, não me leve a mal, mas ainda não entendi muito bem o que exatamente aconteceu com você.
— O que eu lhe disse ontem? Não me lembro de quase nada.
— Assim é melhor, então me conte tudo desde o começo. O que aconteceu?
— Tem certeza? Você não acha que eu sou uma maluca? Ainda quer ouvir tudo de novo?
— Não, eu não acho que você é maluca! — respondeu ele, sorrindo lindamente para ela, mais uma vez, daquela maneira que a fazia estremecer dos pés a cabeça — Ou talvez seja, quem sabe? Mas o que eu sei é que ninguém viajaria tantas horas apenas por loucura, ou brincadeira. Sei que é muito importante para você o que tem a me dizer. Eu não estaria sendo sincero se dissesse que acreditei no que ouvi ontem, sequer entendi, e é por isso que lhe peço que comece do início mais uma vez. Eu quero entender. — Ele parou por um instante, tocando a mão dela e segurando-a entre as suas — E quero ficar mais um pouco com você...
Raquel Pagno
www.raquelpagno.com    




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7 leitores apaixonados❣️

  1. Adorei esse capítulo. A cada capítulo, fico mais apaixonada pela história. Parabéns!

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    1. Muito obrigada Monica! A trama ficará cada vez mais emocionante! ;)
      Não deixe de acompanhar os próximos capítulos.
      Beijos!

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  2. Acho a profissão de piloto muito arriscada, a pessoa realmente tem que amar voar! =]
    Adorei o final. O Andrew e a Natália são uns fofos!

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    1. Realmente, é muito perigoso. Mas quando a gente faz o que ama, não há medo nem insegurança, né?
      Fico feliz que esteja gostando! ;)
      Não perca os próximos capítulos! Beijos!

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  3. Esta chegando a reta final e eu sem conseguir acompanhar a estória u.u
    Vou precisar de mais tempo livre pra isso ou algumas noites de insônia, haha.
    Mas do pouco que li já deu pra perceber o talento. Estou adorando a trama e a curiosidade sempre me faz voltar aqui pra conferir mais algum capítulo sempre que tenho uma trégua no serviço, haha.

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    1. Obrigada Rita!
      Quando tiver um tempinho para acompanhar, deixe suas opiniões nos comentários, ok?
      Ajudará muito! Beijos!

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  4. Como disse nos outros prefiro não ler para ter spoiler kkk, li um trecho e parece ser ótimo. Parabéns

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