Reflexões

07:00



Pessoal, está no ar o Décimo Primeiro capítulo de "Destino"! A partir daqui começo a me emocionar com a trama e espero sinceramente que o mesmo aconteça com vocês.

Boa leitura!



DÉCIMA PRIMEIRA LIÇÃO – Cada Vez é Especial...

Mais uma vez espremiam-se entre as cordas e os seguranças e o povo clamava pelo herói. Tudo correra bem, sem acidente, sem morte. Ele descia da sua carruagem branca, verde e amarela, em homenagem ao seu país. Sorriso no rosto, como antes de embarcar, capacete azul embaixo do braço. Como era lindo, ela ainda não percebera? Tinha rosto de anjo e olhos de demônio. Olhos capazes de enfeitiçá-la, torná-la volúvel, mais do que já era. Não era de admirar que tivesse tantos, ou melhor, tantas fãs. As garotas gritavam desesperadas, histéricas, o nome dele. Como ela pensara em fazer. Mais uma vez teve os olhos abertos por Andrew e mais uma vez ele tinha razão e tudo estava bem. A tática de fingir estar passando mal também estava sendo usada por algumas daquelas garotas. Os bombeiros tomavam conta disso, evidentemente. Como fora tola em pensar que conseguiria chamar atenção para si. Ela e aquele homem eram de mundos completamente distintos, não apresentavam semelhança alguma. Ela não era ninguém, não passava de uma pobre mulherzinha do interior, sem muita perspectiva de vida. Aliás, era uma condenada, fora marcada pela morte. Ele, ao contrário, vivia dentro de um conto de fadas, em mundo de sonhos, por que tantos ansiavam, mas apenas os eleitos alcançavam. Ele fora eleito. Era um ídolo, um exemplo a ser seguido. E tinha uma vida inteira pela frente, um luxo ao qual ela já não poderia se dar. Perguntara se ele era feliz? Estava explícito em seu sorriso.
Passou mais uma vez ao seu lado e se olhou para ela, foi tão sutilmente que ela não percebeu. Então era isso. Ele se despediria do seu amado e amante público e voaria para longe, muito longe dela, sem sequer tê-la visto. Tanto tempo sonhando reencontrá-lo, imaginando a cena sob diversos ângulos, de muitas maneiras, vendo-se como a heroína que salvaria o herói, livrando-o da morte, e agora que estava ali nada saíra nem parecido com o que imaginara. Ele não a viu, se viu não a reconheceu. Era mesmo muita pretensão da sua parte querer que ele lembrasse. Muito tempo se passara, muitas coisas foram vividas desde então.
Ele finalmente voltara ao avião. O sonho estava acabado. Andrew abraçou Natália, convidando-a para irem embora. Não havia mais o que ver ali. O aeroporto estava quase vazio, e o piloto já ligara os motores para partir. Ela quis ficar. Observou-o até sumir no horizonte. Perdera-o mais uma vez, mas desta vez não fora para a morte. Perdera-o para a vida, a vida que ele tinha, a vida que construíra para si. Desejou profundamente que chegasse em segurança aonde quer que estivesse indo, e prometeu a si mesma que o encontraria de novo. Agora sabia quem ele era, e não seria difícil rastreá-lo. Bastava olhar sua agenda nos jornais, as cidades sempre noticiavam espetáculos inusitados como o que ele fazia. Esse pensamento trouxe de volta toda a determinação que Natália se esquecera de alimentar. Agora encontrara mais uma vez um motivo para viver, para lutar e mais uma vez o motivo era ele.
A noite descera seu véu no infinito. Não havia estrelas, havia apenas uma enorme lua cheia, e as nuvens que surgiram no fim da tarde, contrariando o azul do céu que se mostrara durante todo o dia. Fora um dia anormalmente claro, de um céu límpido como há muito não se via por aquelas bandas.  Natália permanecia na janela, olhando para aquela lua e suspirando, sentindo o vento frio e suspirando. Andrew ficaria ali com ela aquela noite. Preparou um jantar leve para ambos, ensopado de frango, embora ela lhe assegurasse estar sem apetite. Olhando, sentindo e suspirando, ela era capaz de imaginar o rosto do piloto no brilho daquela lua, que também a observava, quem sabe levando notícias suas, trazendo notícias dele...
Olhar, sentir e suspirar era tudo o que ela queria, tudo de que precisava, mas Andrew insistiu em servir-lhe o ensopado. Ela teve de aceitar, ele prepara a mesa com cuidado, usara os guardanapos azuis porque sabia que ela os apreciava. Usara o que sobrara das rosas de Natália para decorar um pequeno vaso vermelho que destacava sua especial beleza sobre a toalha de linho branca. Até mesmo as cadeiras mereceram sua atenção, ele as forrou com um leve tecido de algodão, também vermelho, que Natália não fazia ideia onde encontrara e que combinava perfeitamente com o vaso e as rosas.
Fizeram a refeição em silêncio. Natália, a cada colherada sorria, pensamentos distantes transpareciam naqueles sorrisos, Andrew quase podia adivinhá-los, mas não quis estragar aquele momento que era mágico para ela, então nada disse até o fim do jantar. Enquanto sorvia o caldo quente, ela olhava para o nada, mirava o espaço muito além de Andrew, além de tudo o que era material. Os olhos desfocados e a imaginação correndo solta, ela não prestava a menor atenção ao que estava fazendo, alimentava-se com gestos mecânicos, sem se importar se o fazia da maneira correta. Ela não tinha ninguém a quem impressionar.
— Andrew, eu quero procurá-lo mais uma vez. Não sei se devo, talvez não tenha, como você disse, oportunidade de chegar perto dele, de falar com ele, mas eu queria muito tentar fazer isso. Você sabe o que tudo isso significa pra mim, não é? Você entende a minha ligação, o meu compromisso com ele.
— Eu nem sei o que eu realmente compreendo, Natália. Isso está muito acima da compreensão. Você deve ouvir seu coração, mas não pode se esquecer da razão também. Não adianta se jogar de corpo e alma, fazer loucuras para chamar a atenção dele, é preciso pensar antes de agir. Pensar principalmente no momento em que conseguir o que deseja. Se ele a receber, se ouvir o que você tem a dizer, o que exatamente você dirá? Não pode simplesmente chegar dizendo que ele é um condenado, que a morte está próxima — mesmo porque, não sabemos se está — nem alertá-lo sem mais e nem menos sobre abandonar a sua profissão de uma hora para a outra. Isso soaria como uma loucura. Poderia até fazer com que ele não quisesse mais vê-la.
— E é por isso que eu não sei se devo ir atrás dele. O que eu poderia dizer, Andrew? Eu preciso contar a verdade, ainda que ele não acredite em mim.
— Mas em que isso ajudaria? Dessa forma você evitaria que ele se acidentasse? O fato de você tê-lo visto morrer em suas encarnações anteriores, não são garantias de que ele passara pela mesma experiência nesta vida. Pode ser que desta vez tudo aconteça de maneira diferente. Você já pensou nisso?
— Eu já pensei, sim. Nesse caso teríamos tempo... — ela interrompeu a frase. Ia dizer que teriam tempo para conversar, para conviver e resolver de uma vez os problemas do passado, mas lembrou-se de que, na verdade, quem não tinha tempo era ela. Ele talvez tivesse todo o tempo do mundo. Ela não. — Quer dizer, nesse caso ele teria tempo para digerir tudo o que eu lhe contasse. Quem sabe eu o colocaria em contato com o doutor, ele poderia ajudá-lo. Mostraria para ele tudo o que eu vi.
— Ele pode não querer. Pode até ser que queira, mas não consiga. Nem todas as pessoas estão sujeitas à hipnose, há muitos que só conseguem experimentar um leve estado hipnótico depois de muita insistência. Tem que querer, ter vontade e paciência.
— Mas considerando que tudo corra conforme o planejado, que eu consiga falar com ele, mas que ele se recuse a ser hipnotizado, existe a possibilidade de o doutor hipnotizá-lo mesmo contra sua vontade?
— De maneira nenhuma. Isso é coisa de cinema. Como você sabe, para entrar em estado hipnótico necessita-se de muita concentração. Se a pessoa não quiser, a mente bloqueia essa concentração e ele não é hipnotizado. É preciso estar disposto, ou no mínimo curioso, para conseguir passar por essa experiência, ainda mais nos casos de regressão quando o cérebro tem de querer ativar a memória adormecida para conseguir buscar e interpretar coerentemente o que até então esteve guardado, fora de alcance. Não é possível hipnotizar alguém contra a sua própria vontade. Não há como invadir as mentes alheias, sem a devida permissão. Chato, né? Seria legal descobrir os segredos dos outros, saber o que pensam, que visão têm da vida. Você não acha?
— Que coisa feia, Andrew! Querendo bisbilhotar a mente alheia! — os dois riram com a reprimenda de Natália. Na verdade ela adoraria poder invadir as mentes das pessoas, precisava muito invadir a mente daquele homem, e colocar todas as lembranças de volta aos seus lugares. Assim, ele poderia fazer as escolhas certas, conforme o doutor lhe dissera, poderia evitar outra tragédia.
— Mesmo assim eu quero tentar, preciso tentar. Ou não partirei desta Terra em paz. Só conseguirei descansar depois de falar com ele, de explicar o que eu vi e pedir-lhe ao menos que tenha cuidado e que eu o quero vivo.
— Nesse caso, farei uma lista das próximas demonstrações. Eu irei com você.
— Não quero incomodá-lo, Andrew, você tem suas obrigações aqui.
— Estou precisando mesmo tirar umas férias e, além disso, eu adoro viajar! Uh! Vai ser o máximo! Uh! — Natália riu de novo com o bom humor de Andrew. Depois voltou à janela, suspirou mais um pouco e foi para a cama. Andrew se encarregou de arrumar a cozinha, ela estava feliz e ele estava feliz por ela. Sabia o quanto era importante cumprir a missão que ela mesma traçara para si. Estaria ao seu lado, viu que a aura dela começara a ganhar cores novamente e isso o alegrava muito. Se estivesse forte, poderia lutar com mais forças contra a doença instalada no cérebro e podia muito bem vencê-la.
Com a lista em mãos, Andrew analisava quanto custaria a viagem a dois. Teriam que ir voando, pela estrada não chegariam a tempo. Ela não queria se atrasar, preferia chegar bem antes para poder vê-lo pousando. A chegada era uma oportunidade preciosa, não seria bom perdê-la. Ainda era preciso pesquisar os horários dos voos, porque um pouco antes do espetáculo, os aeroportos eram fechados e o tráfego aéreo interrompido. Natália entregou o telefone e a lista telefônica a Andrew, que se encarregou de escolher o que fosse mais prático, e mais econômico também.
Embarcaram uma hora antes do meio-dia. Andrew levara um pacote de bolachas de água e sal para almoçar no caminho, Natália preferiu não levar nada. Estava ansiosa e a ansiedade tirava-lhe o apetite. Aterrissaram em menos de três horas, uma viagem que, de carro, levaria pelo menos onze horas. O aeroporto ainda estava deserto, apenas algumas pessoas da organização do evento passeavam pelo local, analisando as condições climáticas, a infraestrutura, e montando as bancas que venderiam os souvenires. Ela quis ficar ali mesmo e esperar, mas Andrew preferiu dar uma volta para conhecer a cidade, o show demoraria a começar.
Tudo ali era diferente, as pessoas andavam apressadas pelas ruas movimentadas, enquanto os automóveis moviam-se devagar, enfileirando-se nos congestionamentos. Ninguém conhecia ninguém, mesmo porque, ali ninguém tinha tempo para olhar para o lado, para ver os rostos que passavam, as vidas que se cruzavam. Natália sentia-se invisível naquela cidade. Não importava se estivesse elegantemente vestida ou com um simples agasalho no corpo, ninguém via, ninguém notava, ninguém se importava. Todos muito concentrados em suas tarefas e obrigações, trabalhando, lutando para conseguir um bom salário, porque isso traz segurança. E também traz desejos. Desejo de ter uma casa maior, um carro melhor... desejo de tornar-se um escravo, tendo que se obrigar a trabalhar mais para manter o melhor padrão de vida e ter cada vez menos tempo para a família, para as paixões, para todas as coisas que realmente importam nesta vida. E então quando menos esperassem, a vida poderia lhes pregar uma surpresa, destas que a bem humorada vida pregara a Natália. Ela sabia que então eles veriam quanto tempo perderam buscando coisas que só o dinheiro poderia comprar, porque foi essa a sua primeira grande revelação. Dinheiro é importante, sim, mas não é tudo na vida. O amor é infinitamente mais importante e, justamente por isso, infinitamente mais difícil de conseguir.
Natália insistia para que Andrew a levasse de volta ao aeroporto, já estava exausta de tanto caminhar olhando lojas e vitrines, e estava também angustiada e com medo de perder a oportunidade de falar com o piloto. Ele finalmente concordou. Pegaram o primeiro táxi disponível que passou e voltaram. Àquela hora já havia alguns curiosos esperando. Natália, agora cuidadosamente arrumada, escolheu seu lugar na fileira da frente, bem ao lado das tietes do piloto. Ela vestia um elegante vestido preto e meia-calça da mesma cor. Calçara um sapato de salto baixo, mais confortável que os de saltos altos, mas não menos elegante. Sabia que se destacaria no meio das adolescentes fanáticas, vestidas com seus berrantes tons de cor-de-rosa, que variavam desde o rosa bebê e o rosa chá, até o mais vívido rosa-pink. Se ele não percebesse a sua presença desta vez, só podia ter problemas de visão, pensava Andrew.
O som do motor já podia ser ouvido e o ponto se movendo ao longe já era notado, aproximando-se depressa, fazendo o coração de Natália disparar de tanto medo. Medo de não conseguir alertá-lo, o que era bem provável, e mais uma vez assistir ao voo daquele anjo com o coração na mão, com o medo de que algo desse absurdamente errado. Outra vez ele dera algumas piruetas antes do pouso, e uma volta sobre a cidade. Aquele era um procedimento padrão ou ele apenas queria desfrutar da vista? Ela estava quase convencida de que era a segunda opção. Achava que era mesmo lindo ver tudo aquilo lá de cima, apesar de não ter espiado pela janela do avião em que viajara porque ficara com medo. A aeronave se posicionara para o pouso, as meninas, enlouquecidas, gritavam e erguiam suas faixas cobertas de declarações de amor, que tapavam a visão de Natália. Ela permaneceu onde estava, mesmo porque não teve forças para mover mais nenhum músculo só em pensar que ele já estava tão perto. O capacete fora retirado e os gritos desesperados das meninas aumentaram. De novo as mesmas táticas, tentar burlar a segurança, fingir estar passando mal, entre outras um tanto mais apelativas. Natália permanecia parada, congelada. Quanto mais ele se aproximava, mais congelada se sentia e a única vontade que tinha era de sair correndo dali mais uma vez, de se esconder em um canto escuro e não sair de lá nunca mais.
Ele veio em sua direção, passou mais uma vez sem se dar conta de sua presença. Ela estava escondida entre todas aquelas garotas, que de tanto pular acabaram por empurrar Natália bem mais para trás do que ela precisaria estar para que ele a visse. Outra vez, entrevista, entrada no aeroclube, saudações às autoridades, mais entrevistas, show, entrevistas e despedida. Nenhum olhar, nem mesmo se dera conta de que ela existia e que estava ali por sua causa. Todos estão aqui por sua causa, por que comigo haveria de ser diferente? Só mais um rosto em meio a tantos outros, mais uma fã desesperada... pensava enquanto voltava ao encontro de Andrew, desanimada, quase sem esperança de que  conseguisse fazer com que ele a notasse. Ele é um anjo do céu, um lindo e inalcançável anjo...

Raquel Pagno
www.raquelpagno.com    


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13 leitores apaixonados❣️

  1. Que lindo, adorei o capítulo.É de arrancar suspiros. Fiquei ansiosa pelo próximo capítulo.

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    1. Que bom que gostou Monica! :D
      Toda sexta tem capítulos novos! Não perca! ;)

      Obrigada pela visita! Beijos!

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  2. Estou lendo o primeiro capítulo e estou gostando bastante. Vou continuar acompanhando =)

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    1. Que bom Pamela! não esquece de deixar suas opiniões nos comentários, ok?
      Muito obrigada por ler! Beijos!

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  3. ADOREI! Não vejo a hora de chegar outra sexta para ter mais capítulos bons como esse.

    Beijos, Amanda.
    http://fic-board.blogspot.com.br/

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    1. Legal que gostou Amanda! Não perca os próximos capítulos,muitas surpresas virão!
      Ah, e deixa sua opinião aqui pra gente também! Muito obrigada! Beijos!

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  4. Ahh adoro quando encontro um blogueiro que posta seus textos no blog.
    Como ainda não comecei a ler, não vou querer spoilers, né? Vou lá ler os primeiros capítulos...

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    1. Olá Rita! Bom, eu não sou exatamente a blogueira, sou colunista aqui no blog da Mila! rsrsrsrsrsrsrsrs
      Que bom que que vai ler os capítulos anteriores :D
      Deixa sua opinião nos comentários pra gente, ok?
      Beijos e obrigada pela visita!

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  5. Melhor começar com calma lá do início para entender tudo direitnho.
    Bjs, Rose.

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    1. Leia sim Rose. ;)
      Depois deixa sua opinião aqui pra gente, ok?
      Beijos!

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  6. Genteeeeeee preciso ler os ouros capítulos! kkkkkk Bem, to indo me atualizar!

    bjo bjo^^

    http://www.livrosdeelite.blogspot.com.br/

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    1. Oi Ana Paula!
      Quando ler deixa a sua opinião pra gente, ok?
      Beijocas!

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  7. Não quero ler para não estragar quando começar a ler kkk Como disse antes quando tiver tempo quero lê-lo. Beijoos

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