No Meu Mundo...

07:40



Segue o último capítulo de "Destino"!

Deixo aqui meu agradecimento especial a Michelle, que tão carinhosamente me acolheu no seu blog, me dando total liberdade para decidir o que postar!
Meus agradecimentos a cada leitor que acompanhou essa emocionante aventura, e aos que ainda não puderam, mas irão acompanhar. Agradeço a cada comentário, crítica ou sugestão, tão importantes para o aperfeiçoamento desse trabalho. 
Enfim leitores, vocês são demais! Um grande beijo nas suas bochechas! 

Boa leitura!



DÉCIMA SEXTA LIÇÃO – O Voo da Fênix...

O dia clareou rápido. Nem bem o primeiro raio de sol despontou apertado entre os dois prédios vizinhos e o quarto já estava inundado de luz, que penetrava pelas cortinas claras de tecidos leves e finos. Ela pareceu despertar, sem ao menos ter a certeza de que tinha dormido. O sonho fora tão real, que por um momento ela duvidou que pudesse ter sido apenas imaginação. Ela o vira mais uma vez, chamando-a, pedindo que ficasse ao seu lado. E ela aceitara. No sonho não fora difícil dizer sim. E ele sorrira para ela, como havia sorrido na noite anterior e chorara também, mas um choro de emoção, não de tristeza. Ele segurara a sua mão e os dois partiram rumo ao horizonte infinito, seguindo por um campo de vegetação verde em uma tarde de sol, como a que se anunciava naquela manhã de céu claro. Tudo o que ela queria era que a realidade fosse tão fácil quanto o sonho, que tudo desse tão certo na vida real, sem medos, sem receios.
Levantou-se do leito com alguma dificuldade e os olhos ainda ofuscados pela luz que invadira o quarto tão cedo. Andou até o banheiro, tropeçando nas beiradas dos tapetes carpetados ao lado da cama. Abriu as portas de vidro do boxe, mas antes de abrir a ducha para aquecer a água, lembrou-se de pegar uma das felpudas toalhas que havia deixado à cabeceira da cama. Deu meia-volta depressa e sentiu o mundo rodar e em seguida uma forte pontada na parte de trás da cabeça. Imaginou numa fração de segundo que voltaria ao estado de coma, porque naquele momento ficou claro para ela algo de que não se recordava, a dor que sentira quando a doença se manifestou pela primeira vez. Agora não, pensou. Tentou gritar, chamar Andrew, mas seus lábios não se mexeram. Quis correr de volta para cama, temeu sofrer uma queda e machucar-se, mas as pernas já não tinham forças para se moverem. A dor foi tomando conta de todo o corpo, tornando-se insuportável, cegando-a aos poucos. Notou que seus joelhos fraquejavam e caiu de joelhos ao chão. O mundo agora já não era mais luz, e sim, escuridão.
— Natália, acorde, por favor! Natália! — ela ouvia a voz de Andrew, mas a dor persistia e, por mais que tentasse, ela não conseguia abrir os olhos. Alcançou a mão dele e apertou-a, como um sinal de que estava viva e consciente, e que não entrara mais uma vez em estado hipnótico. Ele balançava o seu corpo para ambos os lados e tentava ouvir se o coração batia, se respirava.
Sim, ela pensava, sem poder falar e com as pálpebras pesadas, e os olhos atordoados pelas imagens que se formavam em um déjà vu silencioso, em que apenas as imagens eram claras e lúcidas. Era como se estivesse vivenciando duas realidades simultâneas, uma naquele quarto de hotel, onde a luz forte atingia seu rosto enquanto Andrew tentava acordá-la a todo custo, e outra no mundo dos sonhos, onde estranhamente, ela revia cada cena que vivera em suas regressões e em seu constante pesadelo. E tudo aquilo era real, tão real que ela quase podia tocar. Pensou que morreria, já que ouvira dizer que no último segundo antes da morte, assiste-se à vida toda passando diante dos olhos. E via onde finalmente parou naquele instante mágico em que ele a beijara ternamente, naquele momento em que ela flutuara mantendo os pés no chão, em que subira mais alto que as estrelas, sem precisar sair do lugar. Parou ali, flutuando sobre nuvens, girando lentamente em uma gostosa sensação estonteante. Só ele existia. Só ele e mais nada. O corpo dele tão próximo ao seu, a mão suada tocando seu rosto, os seus lábios... Natália estava em um estado de felicidade quase pleno, e que assim seria se não mantivesse consciência do que a rodeava. Desejava ficar ali para sempre, naquele beijo, dentro do próprio amor que ela sentia. Quis aprofundar-se, tentar entrar de vez naquela cena, e não ter que voltar, para desfrutar daquela felicidade que se apossava de si. Estaria morrendo? Se a morte fosse tão feliz e bonita assim, ela a desejava.
Abriu os olhos contra a sua vontade. O que queria era ficar lá para sempre, com ele, apenas com ele. Mas a realidade insistia em voltar ou em trazê-la de volta. Andrew a observava apavorado, mas não dizia nada. Abraçou-a, com medo de perdê-la. Ela retribuiu o abraço, sem lágrimas nos olhos ou sorriso nos lábios.
— Eu estou bem, Andrew. — explicou, cochichando ao seu ouvido — Não tenha medo, eu estive em um lugar muito bonito, estive com ele. Eu fui feliz.
Ele não respondeu, mas o medo que sentira ainda estava presente. Afastou-se um pouco, tentando ver se a morte a rodeava. Nada. Mesmo assim, o medo persistia e um mal estar no corpo todo surgiu do nada. Uma náusea incontrolável subia-lhe pelas entranhas e ele se esforçava para engolir em seco. Uma saudade triste foi tomando conta do seu coração, mas ele não definia de que ou de quem. Parecia sentir saudade do futuro, de algo que ainda não vira ou de alguém que não conhecera. Fixou os olhos em Natália, também sentia saudade dela, apesar de estarem tão próximos. Apertou-a em seus braços outra vez.
— Então, arrume-se. Ele já deve estar chegando.
— Ainda é muito cedo, Andrew. Eu queria ter mais tempo... — continuou ela, sem alterar a voz baixa e suave com que falara ao seu ouvido.
— Eu sei... O tempo pode ser a eternidade se você quiser. Viva o dia de hoje, como se fosse o último. Creio que já tenha entendido o que é isso, mas temo que tenha se esquecido. Basta fechar os olhos... pense como tem se privado e se torturado pelo amor que existe em você. Como se isso fosse uma maldição. Mas é uma bênção. Você precisa aceitar essa bênção. Eu a vi ontem quando entrou neste quarto, eu senti a culpa sobre seus ombros por que acabara de deixar o amor se manifestar em uma das suas formas mais belas. Parece que os seus valores se inverteram. Entristece-se quando deveria se alegrar e tenta desejar o que não deseja, quando deveria estar aproveitando o desejo que se realiza a cada momento para você. E o pior é que todo mundo faz isso. Que instinto mais cruel! Você não acha? Se você se fechar para o amor, o mal prevalecerá em você, e com ele toda a dor e o sofrimento serão inevitáveis. Só o amor tem poder para curar, minha querida, e da mesma forma, o mal tem o poder de adoecer, de arruinar os corações. E, mesmo que você tenha que partir em breve, irá em paz se aceitar o amor.
— É muito difícil, Andrew. Isso significaria uma mudança para a qual eu não me sinto preparada. Eu tenho muito medo, medo de sofrer. Medo de ganhar para depois perder. Medo de me acostumar à felicidade pra depois enfrentar outra vez a tristeza. Ironicamente, esse medo é o que causa o sofrimento. Não será possível entregar-me enquanto existir medo. Mas como extingui-lo? Como se arranca um sentimento de dentro do peito, sem deixar cicatrizes irreversíveis? Para isso não há remédio, ou conformismo, Andrew. As cicatrizes da alma sempre doem e tornam a doer com certa frequência. E eu lhe asseguro que não quero passar o resto dos meus dias chorando por um abandono ou traição. Eu não suportaria.
— Mas quer passar o resto de seus dias lamentando-se por ter sido covarde e imaginando o quanto poderia ter sido feliz? E o fato de saber que não teve coragem para descobrir, não é também uma ferida a carregar em sua alma para o resto de seus dias? E essa cicatriz não irá causar-lhe dor maior ainda?
As palavras de Andrew soaram como a reprimenda de um ser superior, que Natália jamais soubera que existia nele. O garoto problemático que Andrew fora, agora poderia ser equiparado a um sábio, quando dizia essas palavras sobre o amor. O que ele poderia saber sobre o amor, será que já amara alguém? Ela não sabia e sequer tinha motivos para querer saber. Andrew era muito reservado, sempre. Debruçou a cabeça no ombro do amigo, apertando-o com os braços. Seus sentimentos não passavam de um furacão em fúria, de indefinidas sensações e inúmeras dúvidas que não lhe permitiam expressar a menor emoção. Esforçou-se para absorver as palavras de Andrew, desbloquear o mal que lhe impedia de amar. Em breve o homem dos seus sonhos estaria ali. E a levaria com ele.
— Eu sei que você tem razão, Andrew. Eu passei a vida toda me privando do que eu realmente queria, por medo, mas estava decidida a enfrentar esse sentimento, até esse amor surgir. O amor é tão poderoso, que ao mesmo tempo em que nos torna fortes, deixa-nos fracos e inteiramente vulneráveis. E eu que pensei já conhecê-lo... o amor... Não entendia nada sobre ele... Agora vejo que tudo o que julguei ser amor, não passavam de meras impressões, vejo o quanto eu o subestimei. Quantas vezes eu ria quando as pessoas juravam ter sido transformadas pela força do amor, quando verdadeiros milagres pareciam acontecer do nada, sem que eu percebesse que era o amor que  operava por detrás das verdades que eu julgava conhecer...
— E quem nunca se equivocou, quem nunca misturou sentimentos, sem poder distingui-los e chamando a tudo de amor? Ninguém pode saber o que realmente é o amor até que ele chegue para bagunçar sua vida. Porque o amor é um grande brincalhão, abala as estruturas, muda as verdades, joga com a vida com uma maestria maravilhosa. — Andrew sentiu-se emocionado com suas próprias palavras, como se sua mente estivesse iluminada. Quase chorou, mas olhou para Natália, ainda sem expressão e conteve-se — Vá agora, querida. Siga o seu caminho. Ele já deve estar quase chegando para buscá-la...
Natália abraçou-o outra vez, esboçando um leve sorriso nos lábios, e levantou-se, caminhando em direção ao banheiro, com a toalha branca e felpuda nas mãos. A impressão que tinha já não era mais de dúvida, mas sim de certeza. Fora possuída por uma esperança mágica, que agora lhe assegurava que seria muito feliz ao lado do homem que o destino escolhera para si, e não via a hora de contar tudo isso a ele. Dizer que aceitava segui-lo para onde quer que fosse, e que o aceitava como ele era, com seus defeitos, sua agenda lotada, que o estaria esperando a cada desembarque e também a cada embarque, para desejar boa sorte. E que iria fazer dele o homem mais feliz deste mundo, pelo tempo que lhe fosse concedido viver.
Abriu o chuveiro, aqueceu bem a água, não se importando com o calor que avermelhava sua pele clara. Pensava em como Andrew sabia ser convincente quando queria e em como seus argumentos eram consistentes. Enquanto se ensaboava, perguntava-se se ele ouvia ainda as vozes vindas de outros mundos, de outras dimensões, temendo atrasar-se para o encontro que parecia nunca chegar. Ela aprendera como o tempo pode ser relativo. Relativo ao que se espera, ou ao que não se espera. Tão imenso quanto os desejos e tão pequeno quanto o tempo que ela teria para viver aquele amor. Ter a certeza de que poderia morrer a qualquer momento a fez pensar de maneira diferente também a respeito do tempo e, embora todos saibam que a cada minuto de vida corre-se o risco de não estar mais aqui no minuto seguinte, só se aprende a levar isso a sério quando um médico lhe garante menos de seis meses de vida, como fez com ela. Ela achou o pensamento engraçado, aprender a viver justamente quando está frente a frente com a morte e não há mais como fugir dela. O que não entendia ainda era como pôde ter desperdiçado tanta vida, enquanto ainda a tinha e por que julgara que esta vida nunca iria acabar, se correu tantos riscos nesta existência, todo o tempo? E por que o coração reagia ao amor com tanto medo, se já não havia nada a perder?
Depois de alguns poucos minutos, saiu do banho. Secou-se, vestiu-se e voltou para o quarto, pensando que Andrew certamente estaria também apressado a arrumar-se. Parou no hall que dividia as entradas do quarto e do banheiro, esperando que Andrew a recepcionasse com um elogio. Ele não a estava esperando. Olhou para a cama e reparou, espantada, o grande volume entre os cobertores. Andrew voltara a dormir? Caminhou até o leito do amigo, sentou-se ao seu lado. Ele nada disse, apenas virou-se para fitá-la. Seu rosto já não tinha a mesma expressão de antes, agora se podiam ver grandes e escuras olheiras rodeando as pálpebras, contrastando com o rosto que refletia uma palidez anormal. Natália levou a mão à testa de Andrew, procurando sinais de febre. Ele estava gelado, apesar da grande quantidade de cobertores que colocara sobre si.
— O que houve? — ela cochichou. Andrew esticou uma das mãos para fora das cobertas e segurou a dela levemente, chacoalhando a cabeça.
— Eu não sei. Não me sinto muito bem. Deve ter sido algo que comi ontem, algum tempero a que meu estômago não está acostumado. Estou com náuseas e um pouco tonto. Peça desculpas ao seu piloto, por mim. Terei de faltar à apresentação dele.
— Não, eu vou descer e comprar um remédio para você. Logo estarei de volta, você vai ficar bem e vai assistir ao show comigo.
— Imagine, eu atrapalhar o seu dia! Daqui a pouco eu estarei bem, novinho em folha, é só eu conseguir pôr para fora a comida que fez mal e pronto, serei de novo o velho Andrew de guerra!
— Então eu vou ficar aqui com você. Tenho certeza de que ele entenderá e...
— De maneira alguma! — interrompeu Andrew, enquanto Natália pegava a bolsa e retirava dela o telefone celular — Você tem de estar lá, ele pediu tanto! Por favor, não faça isso! Eu ficarei bem! Se melhorar em tempo, prometo que tomarei um táxi até o aeroporto e encontro vocês lá, mais tarde. E afinal de contas, ele quer almoçar ao seu lado! Não o decepcione, vá com ele!
— Andrew, eu não posso deixá-lo aqui desse jeito, eu...
— Olha, eu vou telefonar para a farmácia, então, e pedir que entreguem os remédios aqui mesmo, como você me contou que ele fez para você. Se quiser, você mesma pode fazer isso antes de sair. E não se preocupe, é só um mal-estar e vai passar logo. Antes da hora do show eu já terei chegado ao aeroporto. Apenas quero me privar do almoço, porque acho que meu pobre estômago não aguentaria mais e mais temperos picantes como os que costumam servir por aqui. — Andrew sorriu forçadamente. Não tinha dúvidas de que seu estômago estava muito bem, mas a sua alma não estava. A sensação era mais forte agora, de mal-estar, de cansaço, como ele sempre sentia antes de uma de suas crises. Não podia confessar isso a ela, seria o mesmo que forçá-la a ficar ali com ele e perder o que poderia ser seu último dia ao lado do homem que amava. Ele não era egoísta a esse ponto, sendo Natália sua irmã do coração, queria vê-la feliz, esta era sua missão neste mundo.
— Só você mesmo, Andrew, só você! — disse ela, com remorso e gratidão, beijando a face gelada de Andrew. Tinha que ir logo, faltavam menos de cinco minutos para o momento em que ele chegaria para buscá-la.
— Natália, espere! — gritou Andrew quando ela levou a mão à maçaneta da porta...
— O quê? — Natália olhou para trás assustada.
— Você está linda! — disse ele. Ela não resistiu e voltou até Andrew, deu-lhe outro beijo na face e um abraço demorado.
Mais uma vez ele a esperava no saguão, bem perto do elevador. O recepcionista mal-humorado estava de volta, e desta vez, tratara de virar logo o rosto para a parede, evitando quaisquer possíveis tentativas de diálogo. Natália o vislumbrou logo que a porta se abriu entre o casal que descera antes dela. Ficou paralisada por uma fração de segundo, tempo suficiente para sua mente arquitetar mil pensamentos sobre ele. Como estava lindo, radiante e sorridente! Vestia uma calça preta de veludo e um blazer também preto sobre um suéter verde que realçava ainda mais seus olhos claros, que ela reparara, não tinha cor definida e mesclava entre o verde e o azul. Trazia no pescoço o mesmo lenço que usara nos espetáculos anteriores, verde e azul com pequenos aviões bordados, que lhe atribuía um charme especial e que ele garantia lhe trazer sorte.
Natália caminhou em sua direção, olhar baixo, fixo no chão à sua frente. Parou antes que ele pudesse se atrever a beijá-la. Estendeu-lhe a mão, como fizera na noite anterior, e ele segurou-a acariciando-a com os dedos, e a beijou, como só os românticos sabem fazer. Natália enrubesceu, sentiu o calor incendiar-lhe as bochechas, o que a deixou mais envergonhada ainda. Diante dele ela já não era mais a mulher independente de sempre, mas sim uma adolescente que dera o primeiro beijo no primeiro namorado na noite anterior, e que agora não sabia como encará-lo. Ele percebera, pensou quando ele deu mais um passo em sua direção, ainda segurando a sua mão. Ela o encarou, evitando encontrar o olhar, que ela sabia, estava mirando o seu como uma flecha afiada aponta para o alvo. Sentiu-se boba e imatura como nunca se permitira ser, e gostou disso.
Ele a conduziu pela mão até o carro, estacionado a alguns quarteirões do hotel, como se já formassem um casal. Abriu-lhe a porta, ajudou-a a entrar, com cuidado por causa dos saltos altos. Outra vez dirigia devagar, prolongando a viagem; conversava para quebrar o gelo e o nervosismo que é claro, ele sentia também. Expressou grande preocupação quando Natália lhe contou o ocorrido com Andrew, sugeriu que mandassem um médico ao hotel, para que o examinasse. Ela afirmou que não seria necessário. Perguntou onde ela gostaria de almoçar. Ela desconversou, dizendo que não conhecia a cidade e que o que ele escolhesse estaria do seu agrado. Ele segurava o volante com uma só mão e apertava a dela, solta sobre o banco de couro preto. Natália retribuía com um olhar ou um sorriso tímido.
Sentaram-se na ala lateral do grande salão de um restaurante simples, na parte central da cidade. O ambiente acolhedor era bem diferente daquele luxuoso em que estiveram na noite anterior e a deixava muito mais à vontade. As cadeiras de madeira com assento de palha se pareciam às das lanchonetes que frequentava em sua cidade com Andrew e por um instante ela sentiu-se em casa, como se ele tentasse desesperadamente entrar no seu mundo, fazer parte da realidade em que vivia. As conversas sobre assuntos corriqueiros e que não interessavam a nenhum dos dois, eram ouvidas de todos os lados. Natália pensava como essas pessoas, iguais à maioria que ela conhecia e como ela própria fora antes, eram superficiais e se importavam com coisas banais como o tempo, alguma mercadoria que viram pelas vitrines do comércio, ou se ocupavam com discussões domésticas tão pequenas, que deixavam a vida escapulir entre os dedos e nem percebiam. Ela era uma privilegiada, porque tinha algo importante, tinha o homem dos sonhos ali, bem a sua frente, e tinha uma resposta a lhe dar. O que faltava, era por onde começar. Se despejasse isso em cima dele assim, de uma hora para a outra, talvez o assustasse. Esperava que ele perguntasse, quem sabe no final da refeição, mas ele parecia com medo também, ainda mais depois do que ela dissera na noite anterior. Ela pensava se teria passado a impressão de que recusaria o convite a qualquer custo, e se isso acontecera é porque era mesmo a sua intenção naquele momento. Como ela mudara de opinião em tão pouco tempo...
Comeram em silêncio, apenas prestando atenção um ao outro, a cada movimento. Em meio à refeição, ele a surpreendia com um de seus melhores sorrisos. Ela retribuía algumas vezes e em outras, apenas baixava os olhos, envergonhada e sentia a face corar. Era a primeira vez, entre todas as outras. Ela não passava de uma menina boba quando estava com ele, já não havia nenhum traço da mulher decidida que tivera a coragem de seguir seu sonho doido. E ele era um garoto que começava a viver, inseguro, que não tinha o que dizer para acalmar o desejo que sentia e que era surpreendido a cada vez que seu corpo dava um sinal desse desejo, o que ocorria a um simples olhar na direção dela. E então ele sorria, achando graça das bochechas vermelhas dela, graça de si próprio. E como aquilo tudo era delicioso para ambos, como era novo e surpreendente, apesar das experiências anteriores de cada um, que deixavam de existir quando estavam diante um do outro.
 Comeram entre jogos de olhares e de sorrisos. Sem dizer nada, mas compreendendo tudo. Finalmente, após a sobremesa, ele reuniu todas as suas forças e perguntou. Era preciso ter certeza, ainda que desconfiasse qual seria a resposta.
— Quer se casar comigo? — ela olhou-o atônita. Casamento não era exatamente a palavra para expressar que ela desejava passar os seus últimos dias ao lado dele. Não haveria tempo para cerimônias e formalidades. E ela tampouco as queria. Apenas estar ao lado dele era o que bastaria. Já era a realização do seu sonho.
— Não — respondeu em um só golpe — Mas eu quero estar ao seu lado cada dia que me resta. Se isso for o bastante para você, eu o seguirei.
Ele não respondeu e por um longo tempo, sério, sem expressar qualquer emoção, admirou-a em silêncio.  Então segurou a sua mão e beijou-a, como havia feito na noite anterior e levantou os olhos com o sorriso mais lindo que ela já vira na vida e que duvidava voltar a ver algum dia. Com os olhos umedecidos de lágrimas que não se atreveriam a descer pela face ou tocar os lábios trêmulos, declarou:
— Eu amo você. Você pode até pensar que é brincadeira, ou que estou sendo irônico, mas essa é uma verdade que eu não consigo explicar. Eu a amo de uma forma que jamais pensei ser possível.
— E eu... que o amava antes mesmo de  conhecê-lo... — disse ela, comparando o seu sentimento ao que ele acabara de declarar — tampouco consigo explicar... O que sei é que quero ficar ao seu lado, que aceito a sua vida como ela é e que pretendo ajudá-lo no que for possível, enquanto eu ainda tiver forças. Quero estar ao seu lado, mesmo sabendo das limitações da sua agenda apertada, das fãs desesperadas por você, das suas crianças, que a partir de agora, não serão apenas seus filhos, mas de nós dois. Não há nada no mundo que eu queira mais do que isso e acho que nunca houve nada que eu desejasse com tanta força, quanto estar ao seu lado.
O restaurante simplesmente silenciou. Foi como se o mundo tivesse parado naquele exato momento, como se as pessoas estivessem congeladas, o trânsito imóvel com seus motores e suas buzinas mudas. Até mesmo a música suave que tocava ao fundo de todas aquelas vozes, deixara de existir. A única coisa que se movia, era uma pequena gota prateada que descia preguiçosa do olhar dos apaixonados, para depois ser abruptamente interrompida pela mão e pelo lenço azul e verde, cruelmente arrancado do pescoço, onde fora posto com todo esmero possível. Simplesmente porque o amor tinha seus poderes e além de parar o tempo ele fazia surgir nos corações um prazer dolorido, uma incredulidade de ser correspondido. E os dois desejaram ao mesmo tempo nunca ter de deixar aquele lugar, permanecer naquele estado de embriaguez em que mergulhavam ao trocar juras de amor, no instante eterno. Mas o tempo, que parecia congelado, passou mais depressa que o normal, e fez com que ele, instintivamente, olhasse no relógio.
— Está quase na hora. Precisamos ir. — explicou ele, enquanto a consciência doía por ter de acordá-la do sonho que, ele sabia, estavam compartilhando. — Eu tenho uma coletiva de imprensa, depois terei de receber a legião de fãs...
— E aí começa a agenda a atrapalhar... — disse ela sorrindo, com ar brincalhão.
— Oh! Você acabou de prometer que aguentaria! — respondeu ele, também zombeteiro — Por quantos segundos a promessa dura?
— Ela durará enquanto houver vida, meu amor. — respondeu, retornando à paixão que a absorvera um minuto antes.
Saíram de mãos dadas outra vez, mas ele preferiu não beijá-la novamente. Prepararia uma surpresa especial para ela, assim que o espetáculo terminasse. Depois do que ela respondera à sua proposta, ele julgara não mais ser necessário o jatinho que alugara para levá-la para casa, levá-la-ia para o seu hotel, para o seu quarto e para a sua vida, para não mais deixá-la ir embora. Telefonaria para a recepção do hotel e pediria que preparassem a suíte nupcial. Queria uma cama coberta de flores, de pétalas de rosas, queria lençóis de cetim, uma banheira de espuma e um champagne francês, por que ela não merecia menos do que isso, e porque ele próprio sonhara com uma noite assim, a noite em que estaria com o amor verdadeiro.
Natália telefonou para Andrew, na saída do restaurante. Ficara preocupada e assim que o seu momento mágico se dissipara, não pôde mais relaxar sem saber se ele havia melhorado e se estava bem.
— Aproveite o seu final de almoço — disse ele, do outro lado da linha — Eu já me sinto melhor. Vou comer alguma coisa e depois vou para lá também, assistir ao voo do seu anjo.  Não se preocupe comigo, qualquer coisa eu ligo de volta.
Natália não acreditou nas palavras de Andrew, conhecia-o bastante, o suficiente para saber pelo seu tom de voz que ainda não estava nada bem. Ficara tensa e essa tensão interrompera a felicidade abundante que a inundava. O piloto insistiu em que voltassem ao hotel, onde ela poderia constatar o estado de saúde de Andrew, mas ela negou, não o atrasaria mais do que já estava atrasado.
Desta vez dirigiu apressado, e isso fez com que ela recordasse a regressão em que vira o acidente dos dois, no qual faleceram. Fechou os olhos, tentando esquecer-se de tal horror e dizendo para si mesma que a cada encarnação, as mortes eram diferentes e que desta vez eles seriam felizes e as tragédias cessariam. Sentiu-lhe a mão quente entrelaçando os dedos nos seus. Ela ainda tremia ao menor contato. Já não era um tremor de medo, mas de prazer, uma sensação que arrepiava todo o seu corpo, apenas por sentir o toque da pele dele contra os seus dedos gelados. Olhou-o de soslaio para mais uma vez se deparar com o luminoso sorriso e o brilho daqueles olhos.
Muitas pessoas já o aguardavam nos arredores do aeroporto. De longe, pela estrada que conduzia ao local, Natália viu o pequeno avião, todo enfeitado, que aguardava seu piloto. Sentiu como se já tivesse visto aquela cena antes, como se aquele avião sempre tivesse estado ali, esperando um piloto que nunca chegava. Olhou a multidão que se aglomerava ao redor da pista esforçando-se para chegar um pouco mais perto, mas era impedida pelos seguranças. Viu também os que aguardavam na lateral do corredor, por onde em instantes ele apareceria, o príncipe dos sonhos de todas aquelas mulheres, o exemplo a ser seguido pelos mais jovens, o ídolo. Seu peito doeu, com uma pontada de ciúme, mas olhou para ele, e tudo de ruim que poderia sentir, partiu, para não mais voltar. Viu as garotas com seus cartazes apertando-se à beira da corda que separava a entrada do hangar, onde ela também estivera dias antes em busca de um olhar, de uma palavra. Agora, não precisava mais se espremer por ali, estaria ao seu lado durante o percurso.
Desceram do carro, ele acenando para o público, ela com o coração disparado de ansiedade. Não se importava com os fãs, com a imprensa que o aguardava, estava nervosa por causa do voo. Apesar da proximidade dos dois, o medo não se extinguira do coração de Natália, parecia sim, ter aumentado.  Ele aproximou-se da corda, distribuindo autógrafos e se permitindo fotografar. Vez ou outra olhava para ela. Ela sorria, então ele continuava. Quinze minutos se passaram até que a plateia se desse por satisfeita. Dirigiram-se para o hangar, onde os repórteres já o aguardavam para a coletiva. Queriam detalhes sobre o problema no avião, assunto que deixava Natália apavorada. Ele garantiu que agora estava tudo na mais perfeita ordem e que não havia motivos para preocupação. Mesmo assim, o coração dela mantinha-se apertado, e ela sabia que seria assim a cada apresentação, a cada voo.
O momento se aproximava, Natália queria que Andrew estivesse ali, ou no mínimo, que chegasse a tempo de ver a decolagem. Estava nervosa e não queria estar sozinha nessa hora. Apesar de todo aquele povo, sem Andrew, ela estaria só. Talvez o piloto tenha percebido seu nervosismo, ou o quanto estava se sentindo deslocada, uma intrusa atrapalhando a chegada dos fãs até o astro, então aproximou-se e abraçou-a carinhosamente. Os que ainda permaneciam no hangar, retiraram-se, entendendo que aquele momento pertencia apenas a eles. Sussurrou ao ouvido de Natália que a amava e que não se preocupasse. Ela sentia como se ele fosse partir em uma viagem longa e distante, e ouvia suas palavras como uma despedida chorosa, embora soubesse que em pouco mais de uma hora, estariam juntos novamente. Ele afastou-se e pôs os lábios nos dela, com a mesma suavidade da noite anterior. Ela, que já não precisava conter-se, entrelaçou os braços ao redor do seu pescoço e apertou com força seus lábios nos dele. Ele correspondeu com a mesma voracidade, com a mesma urgência. E o mundo mais uma vez parou de girar. Natália perdeu a noção de quanto tempo levara para que ele a afastasse.
Ouviu alguém o chamando, precisava ir agora. Inesperadamente, segurou-lhe a mão e a puxou até a pista de pouso, sempre andando ao seu lado e desta vez, ignorando o apelo dos fãs desesperados. Parou ao lado da sua máquina, tirou o lenço verde e azul do pescoço, segurou-o na mão direita e beijou-o. Em seguida, colocou-o nas mãos de Natália, repetindo que a amava e pedindo que ela jamais o esquecesse. Prometeu que a loucura que faria esta tarde era por ela, para ela, e ignorou seus pedidos de cuidado e as lágrimas que já começavam a brotar no canto dos olhos. Lançou-lhe outro sorriso, agora mais luminoso ainda, antes de colocar o capacete. Um dos seguranças veio imediatamente tirá-la da área de decolagem, os motores seriam ligados. Ela apertou o lenço entre as mãos e saiu em direção à entrada, onde a vista era plena e bela. Seus joelhos fraquejavam, e o corpo tremia em um espasmo generalizado, fazendo-a prever um desmaio que viria. Tentou enxergar o rosto de Andrew entre a multidão. Não o viu.
Recusou-se a subir à torre de observação com as autoridades, alegando que queria ficar o mais perto possível de onde a apresentação seria feita. Contornou a pista, passando ao campo que rodeava todo o local. Ouviu o ronco dos motores. Virou-se para vê-lo taxiar pela pista, andando para trás em busca de um melhor ângulo. Tropeçou em uma pedra desenterrada, e como por acaso, reconheceu aquela terra quase desnuda, o capim que teimava em crescer apesar do frio do inverno. Voltou-se para a pista, onde ele já alçava voo. Quis gritar que parasse, quis correr na direção dele, mesmo sabendo que seria inútil. Aquele chão era o mesmo do seu sonho, senão, exatamente idêntico. Como era possível?
A tradicional volta sobre cidade, e a primeira pirueta. Natália não sorria, mas sim, chorava, destoando da multidão de pessoas que sorriam e vibravam a cada manobra. Apertou o lenço contra o peito e rezou, com todas as suas forças, com toda a sua alma. Se havia mesmo um Deus lá em cima, ele teria de ouvir as suas preces. Mais um rasante, outra Ave Maria. Baixou os olhos por um minuto, e viu o próprio vestido. A cor clara, como no sonho, a meia-calça desfiada e o casaco negro. Quase perfeito, porém não havia nenhum chapéu e nem fios de cabelo rebeldes pelo seu rosto, que se assemelhassem aos do terrível pesadelo. Olhou em volta outra vez, à procura de Andrew. Ele não estava. Só podia ser um sinal de que hoje definitivamente não era o dia, não era a hora da despedida, porque se Andrew não estava ali, sua imaginação e seu medo estavam lhe pregando engraçadas peças, fazendo tudo se parecer com o sonho.
Horas antes, ainda no hotel, Andrew se cansara de ficar deitado. Sentou-se na cama e ligou a televisão, pouco antes do meio-dia. Ainda não voltara ao normal, apesar de a dor de cabeça já ter diminuído com os analgésicos. Uma tontura súbita percorreu seu corpo, invadindo a mente quando reconheceu a fotografia do piloto no telejornal. O repórter anunciava o espetáculo e convidava a população da cidade a prestigiá-lo. Andrew não via mais luz naquele sorriso estampado na foto, talvez as imagens não pudessem expressar a luz própria das pessoas. Mas a imagem do repórter que apresentava o jornal, mesmo tendo sido gravado no mínimo um dia antes, esbanjava luminosidade, tão acesa que fazia seus olhos arderem. Decidiu ir até lá, só para conferir se estava tudo bem. Vestiu-se depressa e desceu em busca de um táxi. Nas vias que atravessavam o centro da cidade, mais de uma hora depois, viam-se os televisores ligados nas vitrines das lojas de eletrodomésticos. Em uma delas, sintonizada em um canal local, o show aéreo estava sendo transmitido ao vivo, Andrew via pela janela do carro, ao parar no semáforo. Reconheceu Natália, seguindo de mãos dadas com o homem para o hangar. E na outra mão, outra dama o acompanhava, toda vestida de negro.
O avião subia e descia quase tão depressa quanto o coração de Natália tentava saltar para fora do peito. Os rostos felizes e sorridentes a sua volta deixavam-na ainda mais nervosa, será que não percebiam o perigo que aquele homem corria? A vontade que tinha era de pedir a cada um que parasse de festejar e se unisse a ela em suas orações silenciosas. Alguns pareciam ter notado seu desespero, inclusive uma criança que a olhava sem entender, quase chorando também. De repente, uma faixa azul e verde, tal qual o lenço com que a presenteara pouco antes, soltou-se da cauda do avião, onde se podia ler em garrafais letras douradas a frase EU TE AMO! Logicamente, a reverência foi atribuída à cidade, e a explicação foi justificada pelo adiamento da apresentação. Mas ela sabia que era para ela, ele lhe dissera que haveria uma surpresa, a declaração era para ela.
Ela tornou a fechar os olhos, levando o lenço até o rosto, sentindo o cheiro do perfume do homem dos seus sonhos, apertando-o contra os lábios e beijando-o incessantemente, enquanto o avião subia em linha reta, carregando a faixa aberta rumo aos céus. Foi desaparecendo aos poucos, o contorno do pequeno avião transformando-se em um simples ponto reluzente sob os raios do sol que o faziam refletir uma luz intensa e dourada. Pôde-se observar uma pequena pirueta, uma meia volta, e o avião desceu apressado em direção à terra, para delírio do público, que gritava em uníssono o nome do corajoso piloto. Por um instante, os olhos de Natália escureceram, e um flash iluminou sua memória e lhe deu a certeza de que já vira aquela imagem antes. Já vira o avião descendo rapidamente, vira a fumaça colorida que se desprendia do motor ao lado da asa cessar, e depois não se lembrava mais do que havia visto, ou apenas, tentava se convencer de que não se lembrava, evitando o sofrimento que já se apossara de sua alma. Apertou mais o lenço contra o peito e apertou também os olhos, esperando o estrondo que se seguiria. Fez-se silêncio. Ela temeu abrir os olhos. Mais gritos e aplausos seguiram uniformemente, e ela espiou, com medo de abrir totalmente os olhos.
Três giros, e o avião tornou a subir. Ela já estava pálida, quase sem coragem de assistir ao resto do espetáculo, e sentindo-se ridícula porque, ao invés de aproveitar e se divertir, como todas as pessoas presentes, ela chorava e se lamentava por algo que não tinha acontecido. Respirou fundo, e virou-se, caminhando em direção à torre de observação, onde a visão era muito mais ampla. Uma senhora idosa, que assistia a tudo de dentro de um carro, parado no estacionamento lateral, paralelo à pista de voo, apontava o dedo para o céu, enquanto exclamava algo que Natália não pôde compreender. Ela virou-se imediatamente, a tempo de ver que a fumaça cessara e já não se podiam mais ouvir os roncos do motor. O que viu, foi o pequeno avião descendo sobre a multidão de pessoas, que agora, apavoradas, não mais gritavam ou aplaudiam. Numa fração de segundo parece-lhe que aquilo tudo fazia parte do show. Nem ao menos teve tempo de concluir o pensamento e uma brusca guinada lateral tirou o avião da sua trajetória. Natália o perdeu de vista momentaneamente, viu-o descendo muito baixo, baixo demais, escondendo-se atrás de um pequeno barranco que limitava o espaço entre os espectadores e o cordão de isolamento. Esticou-se para vê-lo subir, ressurgir de trás daquele monte de terra e grama seca, mas, em um momento que lhe pareceu eterno, não mais pôde vê-lo.
Um baque seco, e o que Natália viu foi uma enorme língua de fogo, que lambia o ar e transfigurava-se em um demoníaco cogumelo de chamas. Deixou-se cair no campo árido, sentiu as pedras e as imperfeições do terreno castigando-lhe os joelhos. Outra vez ouviu os gritos, agora de pavor e de lamento e viu pessoas correndo sem saber para onde ir. Sem tirar os olhos do fogo, que agora se transformava em fumaça muito negra, viu mães consolando seus filhos, homens ligando carros para partir e bombeiros que chegavam. Outra vez, o sonho. Natália debruçou-se sobre o próprio colo, esfregando o lenço no rosto, molhando-o com suas lágrimas salgadas. Queria correr até lá, queria vê-lo, ainda que pela última vez, mas não conseguia sequer levantar-se. O desespero transformava-se em mal- estar, em náusea, em frio e no calor da explosão ao mesmo tempo.
Uma mão segurou-a pelo ombro, mas ela não se virou para ver quem era. Então Andrew ajoelhou-se a sua frente. Ela soluçava e parecia não o reconhecer, seus olhos ainda fixos na fumaça, que agora não passava de uma réstia azulada que atravessava o corpo de Andrew, atravessava todas as pessoas ali, parecia que alma de Natália deixara o corpo e que agora, estava lá, ao lado dele. Andrew puxou-lhe as mãos, que cobriam o rosto, deixando aparecer apenas os olhos chorosos. Reconheceu o lenço que o piloto sempre usava no pescoço. Estava tão vermelho que não era mais possível distinguir-lhe o verde do azul e apenas a estampa de aviões amarelos aparecia por trás do sangue. Afastou-o do rosto de Natália, perguntando o que acontecera. Ela não disse, não havia ao menos percebido o sangue que jorrava do nariz. Andrew estendeu-lhe outro lenço, o vermelho, que trazia amarrado ao pulso e o colocou sobre o rosto de Natália, tentando estancar o sangue. Levantou-a pelos braços, mas assim que o peso do corpo caiu sobre as pernas, ela fraquejou. Seu corpo caiu nos braços de Andrew, que a segurou. Ergueu-a no colo, olhando em volta, tentando pedir ajuda.
Ninguém ouvia seus apelos, as pessoas saíam apressadamente, temendo uma próxima explosão e tentando salvar suas famílias. Andrew não os condenava. Ele também precisava salvar Natália. Andou alguns passos na direção de um carro dos bombeiros que passava, mas não foi visto. Não soube o que fazer, a culpa martelava sua cabeça e seu coração, ele tinha incentivado Natália a partir para aquela aventura maluca, ele a havia deixado aproximar-se daquele homem, ele a deixara sair sozinha com ele naquela manhã, quando sabia que algo estranho iria acontecer! Justamente quando passava por uma de suas crises, que sempre precediam a grandes desastres e perdas! Ele era o culpado! Ou era mesmo louco, como seu pai sempre dizia. Agora, aquele homem estava morto, e Natália, sangrando nos seus braços, sem que ele pudesse saber exatamente por quê.
— Socorro! Alguém me ajude, por favor! Socorro! — gritava desesperado, ao imaginar que o aneurisma havia se rompido. As pessoas pareciam não ouvir, ou não se importar. Andrew ajoelhou-se no chão, ainda com Natália nos braços, debruçou-se sobre ela e chorou, soluçando como uma criança.
Um homem estacionou o carro diante de Andrew e fez que ele entrasse com Natália. Ele ouvira seu pedido de socorro e voltara após deixar a mulher e filha em casa, porque sabia que ninguém os socorreria em meio àquele pânico todo. Andrew quase não acreditou, mas aquele homem tinha uma luz muito clara, quase branca, que brilhava tão intensamente que poderia ser confundida com o sol. Só podia ser um anjo! E se os anjos realmente existiam, Andrew os imaginava assim.
Chegaram ao hospital e a suspeita de Andrew foi confirmada. Internaram-na imediatamente e pediram que a família fosse avisada. O caso era muitíssimo grave e ela foi conduzida à sala de cirurgia. Andrew aguardava na recepção, após haver preenchido todos os formulários e respondido ao interrogatório de quem o atendera, onde passou doze horas consecutivas. A família finalmente chegara e ele pôde retornar ao hotel para descansar. Andrew pensava que jamais voltaria a dormir em toda a sua vida. A dor que sentia era muito grande, consumia-o por inteiro. Era maior do que quando seus avós partiram. E ele, agora conscientemente, sentia-se ainda mais culpado. Natália era sua melhor amiga, a irmã que ele nunca teve, a única com quem podia se abrir e em quem podia confiar plenamente. Sentia-se envergonhado em encarar seus pais e seus irmãos, que eram para ele, a família unida e feliz que ele não pôde ter. Tomou um banho de água fria, depois sentou-se na cama e chorou até que a exaustão o levasse ao um sono profundo, sem sonhos, como ele jamais dormira antes.
Acordou com o toque do telefone. Dormira um dia e uma noite inteira. Era o irmão mais velho de Natália, pedindo que fosse ao hospital com urgência. Natália estava acordada, mas parecia fora de si e a única coisa que entendiam era que ela chamava por seu nome e pedia por ele. Vestiu-se e correu para o hospital. Viu uma Natália sem luz, quase completamente apagada, não fosse por um resquício de azul que cintilava nos seus olhos. Tinha bandagens envoltas na cabeça, mas já conseguia sentar-se na cama. Andrew sentou-se a seu lado, como fizera em outra ocasião, segurando-lhe a mão.
— Eu disse a eles Andrew, mas ninguém me entende. Eu disse que preciso sair logo daqui, que ele está a minha espera, eu disse... — sussurrou com a voz ainda muito fraca. Andrew não soube como responder, apenas beijou-lhe a ponta dos dedos, a única parte da mão que estava livre das agulhas que injetavam o soro nas veias de Natália, enquanto os olhos derramavam as mesmas lágrimas de sempre.
— Eu tentei explicar que o espetáculo dele vai ser hoje, à tarde, e que ele vem me buscar, mas ninguém quer me soltar daqui. Veja... me amarraram... Por favor, Andrew, por favor, explique para eles.
— Ele não virá. — disse Andrew, começando a soluçar em um choro incontido, como o de uma criança — Não virá mais.
— O quê? Como não vem? Ele me prometeu... eu não... eu não entendo... Por quê? — Visivelmente, ela não se recordava das últimas horas antes da ruptura do aneurisma. Andrew não sabia se deveria ou não contar a verdade naquele momento. Ela ficaria sabendo de qualquer jeito, mas a notícia agora poderia atrapalhar a sua recuperação. Ele preferiu pedir autorização ao médico, antes de lhe fazer a terrível revelação.
— Eu vou lá fora, falar com o médico... Então você pode... você pode ir com ele... — disse Andrew, e saiu correndo do quarto, chorando em desespero. Por mais que tentasse, não conseguia enfrentar o terror de ter que lhe narrar os últimos acontecimentos. Os familiares, angustiados, aguardavam à porta, esperando que Andrew lhes explicasse o que acontecera, por que Natália chamava por um homem desconhecido.
Ele lhes explicou tudo, cada detalhe, precisava desabafar. Não sabia ao certo como agir, e pensava que a própria mãe de Natália era quem deveria dar-lhe a terrível notícia. Ninguém disse uma só palavra, olharam-no com condenação, como se o culpassem realmente, porque ele prometera cuidar dela. Entendeu que ninguém iria lhe contar a triste verdade e que essa tarefa era o mínimo que podia fazer, depois de todo o apoio que dera àquela loucura. Respirou fundo, e entrou no quarto mais uma vez.
— Natália, querida...
— E então — interrompeu ela — Vão soltar-me?
— S... S... Sim... Mas antes, precisamos conversar.
— Pode dizer, Andrew, ele falou com você? Está vindo me buscar? Vamos, diga logo!
— Natália, ele não virá buscá-la.
— É claro que virá, Andrew, nós combinamos ontem à noite, lembra? Onde você está com a cabeça, Andrew?  Fui eu quem foi operada e você quem perdeu a memória? — ela sorriu com um ar zombeteiro, que partiu o coração de Andrew — Aconteceu alguma coisa com o avião?
— Sim, querida, aconteceu uma coisa horrível com o avião. — parou um momento, respirou fundo, ainda ponderando se deveria continuar — E com o piloto também.
— O quê? O que está dizendo? — ela fechou os olhos e levou as mãos até a cabeça, contorcendo-se, como se sentisse muita dor. Andrew apertou a campainha e o médico veio imediatamente. Ela se lembrara!
Outra vez, todos deixaram o quarto. Andrew insistiu para ficar fazendo-lhe companhia essa noite. Natália agora já não expressava mais a animação que a ilusória espera lhe conferira, apenas uma tristeza profunda, uma cicatriz na alma de quem acabara de perder um grande amor. Em seus olhos não havia mais qualquer vestígio daquelas faíscas azuis, apenas a total escuridão. Andrew lhe contou que o enterro fora no dia anterior e que as crianças do orfanato haviam prestado uma linda e inesquecível homenagem. Ela sorriu com os cantos da boca. Pediu que Andrew lhe comprasse um bloco de papel de carta e canetas de muitas cores, especialmente amarelas, azuis e verdes. Ele o fez. Ela garantiu que faria a sua homenagem. Não poderia visitar seu túmulo, mas pediu que Andrew lhe entregasse suas cartas...

Raquel Pagno
www.raquelpagno.com    


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12 leitores apaixonados❣️

  1. Oi Raquel! Comecei a leitura nesta semana,creio que até o fds consiga ler tudo! Parabéns, estou gostando muito!

    bjo bjo^^

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    Respostas
    1. Olá Ana Paula! Muito obrigada!
      Quando puder ler, deixe suas opiniões pra gente nos comentários, ok?
      Beijocas!

      Excluir
  2. Quantos capítulos eu estou perdendo.
    Dei uma lida por alto e a história parece ser muito boa.
    Parabéns a autora!
    Beijinhos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Suelen!
      No total são 16 capítulos. Adoraria se pudesse lê-los e deixar um comentário pra gente. ;)
      Obrigada pela visita! Beijos!

      Excluir
  3. Olá Raquel.
    É muito importante o apoio para nossos autores brasileiros e você está de parabéns pela iniciativa,
    Eu não li esse último, porque não tem lógico, tenho que começar pelo primeiro, certo?

    Aos poucos irei conhece-lo!
    Sucesso tambem para a autora!

    bjos
    Blog Leitura de Ouro

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    Respostas
    1. Muito obrigada! Quando puder, leia os próximos capítulos e deixe seu comentário, ok?
      Beijocas!

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  4. Oi, Raquel
    Adorei. Fiquei super emocionada. Gostei da sua descrição do acidente.
    Parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Monica, fico muito feliz que tenha se emocionado. Eu sou suspeita em dizer que sempre me emociono quando releio essa estória. :3
      Muito obrigada por ter acompanhado essa aventura! Beijos!

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  5. Oi Raquel.
    Que último capítulo emocionante! Que reviravolta! Parabéns pelo seu trabalho!

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    Respostas
    1. Que bom que gostou Pamela! Fico muito feliz que tenha acompanhado essa aventura! Foi realmente emocionante!
      Beijocas!

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  6. Oi, Raquel!
    Juro que vou reservar um tempinho pra ler tudo logo, mas pelos comentários parece estar muito bom mesmo, parabéns!

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  7. Só tive conhecimento dessa obra agora. Vou dar uma conferida nela, e em breve venho por aqui pra deixar minha opinião, tá?!?!

    @_Dom_Dom

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