No Meu Mundo...

07:00



Pessoal, hoje quero apresentar pra vocês o 100º livro da editora Buriti. Trata-se de uma coletânea de contos com vários autores que já publicaram pela editora e tem nomes como Décio Gomes, Thiago Lucarini e Renan Barcellos, entre muitos outros talentos.

Deixo aqui o meu conto "O Grande Mestre do Tempo" integrante dessa maravilhosa coletânea. Para quem quiser conhecer o livro, encontrará no site da editora Buriti: http://editoraburiti.com.br/100o/

Boa leitura!


Conta uma antiga lenda tibetana que quando alguém deseja alguma coisa do fundo do coração, os Grandes Mestres do Tempo sentem a força do desejo e aparecem nos sonhos para torná-los realidade.
Para o jovem Tenzin, isso sempre parecia uma coisa maravilhosa. Pelo menos até o dia em que ele desejou...
Era 17 de maio, uma data sagrada em que os povos budistas se reuniam para celebrar o nascimento de Buda e por isso as famílias amigas estavam reunidas na casa de Tenzin.
Enquanto os adultos celebravam cantando, bebendo e cozinhando os grãos para a ceia, as crianças e os jovens recebiam permissão para brincar fora de casa.
Geralmente, Tenzin e seus amigos sentavam-se em semicírculo na terra árida, acendiam uma fogueira e passavam horas conversando, contando histórias ou jogando gamão, um jogo estranho naquela parte do planeta, mas que o pai de Tenzin trouxera para ele de sua viagem ao ocidente.
Alana, Kavi e Tenzin eram melhores amigos desde a primeira infância. Agora, chegando à adolescência, os três começavam a discordar em algumas coisas. Quando um deles tomava uma decisão, outro sempre era contra e alguém tinha que ceder. O alguém que cedia costumava ser Tenzin e ele sempre se sentia inferior aos outros.
Naquela noite, Tenzin decidiu que não iria mais se rebaixar perante Alana e Kavi. Não acolheria as suas idéias e não se dobraria as suas vontades. Pretendia provar o quanto era importante, já que o seu pai era o comerciante mais próspero de todo o vilarejo.
Ao chegar à casa de Tenzin, Kavi se dirigiu ao relento, onde catou algumas galhadas secas para acender a fogueira. Assim que as amontoou em uma pilha e banhou-as com óleo para que queimassem mais facilmente, Tenzin decidiu que os galhos trazidos por Kavi não serviam e exigiu que o amigo fosse até a cozinha e trouxesse um feixe da lenha que era utilizada para abastecer o fogão.
Kavi não concordou, mas mesmo assim, fez o que o amigo lhe pediu. Acendeu a fogueira e os três sentaram-se em torno do fogo. Alana sugeriu que cada um contasse uma história da vida de um Buda, o que seria apropriado naquela data. Tenzin bateu o pé, queria era jogar gamão. Alana não estava disposto a jogar, mas em fim decidiu acatar a decisão do amigo.
A noite foi longa, o jogo estendeu-se bem mais que o esperado e quando os pais de Alana decidiram ir embora, Tenzin insistiu para que o deixassem ficar, ao menos por mais uma hora para que pudessem acabar a partida. O amigo protestou, mas Tenzin disse que não seria mais seu amigo se ele não ficasse.
Uma hora mais tarde, quando a partida acabou, Kavi já havia ido, por ter sido o primeiro a perder a rodada. Tenzin insistiu para que Alana passasse a noite em sua casa, mas os pais do jovem não haviam lhe dado permissão para isso, então dessa vez, não pode fazer o que Tenzin lhe pedia.
Tenzin, vingativo, resolveu que não acompanharia Alana até em casa, como havia prometido, e por mais que o amigo tentasse fazê-lo ver a situação e entender que não poderia desobedecer aos seus pais, ele deu-lhe as costas.
Sozinho, Tenzin deitou-se na esteira sob as estrelas, o coração ardendo de raiva depois da discussão que perdera. Ele ainda sentia-se um lixo por não ter conseguido persuadir Alana, embora os amigos tivessem se esforçado durante toda a noite para fazer-lhe as vontades. As pálpebras ficaram casa vez mais pesadas e segundos antes de adormecer, Tenzin desejou que os amigos morressem e que todas as pessoas do mundo desaparecessem, assim ele nunca mais seria contrariado.
O dia amanheceu e a mãe de Tenzin não o chamara para compartilhar o desjejum. O jovem despertou com o som da própria barriga roncando de fome. Chateado pelo desleixo da mãe, entrou na cozinha aos berros, mas não encontrou ninguém para servir-lhe o queijo com um generoso copo de leite de cabra que tomava todas as manhãs. Procurou por todos os lados, preocupado, mas a casa estava vazia, então correu até as casas vizinhas à procura de alguém que pudesse lhe explicar o que estava acontecendo.
O primeiro lugar em que entrou foi na casa de Kavi. As portas estavam abertas, a mesa posta como se os moradores tivessem acabado de fazer a refeição. Chamou até ficar exausto, mas ninguém apareceu. Pensou em ir até a casa de Alana, mas sem nenhuma esperança de encontrar o amigo.
Tenzin saiu e ajoelhou-se no chão, cobrindo o rosto com as mãos, arrependeu-se de ter maltratado os amigos, justo na noite do nascimento do Buda e meditou, pedindo aos deuses para que tudo voltasse ao normal. Permaneceu ali por um tempo incontável e quando levantou a cabeça, viu um brilho estranho que parecia surgir de todos os lados.
Virou-se em busca da origem daquele brilho e viu um homem velho, cabelos e barba brancos de pé, olhando fixamente para ele.
— O que está acontecendo? — perguntou.
— Você desejou ter o mundo só para si. Os deuses decidiram atender a sua prece.
— Então, por que você está aqui?
— Vim pra te mostrar a conseqüência dos seus atos. — o velho encostou a mão em sua fronte e Tenzin viu renascer em sua mente a noite do nascimento do Buda.
Viu quando Kavi catou os galhos para acender a fogueira e viu si mesmo exigindo que os substituísse pela lenha da cozinha. Viu quando Kavi guardou o feixe de galhos ao lado de sua casa, para levar consigo quando partisse e como uma víbora do deserto escondeu-se no meio deles e lá ficou até o momento em que o rapaz enfiou a mão para agarrar a lenha e foi picado.
— Não! — gritou Tenzin, correndo para ajudar o amigo, mas conforme se movia, a cena se desfazia em torno de suas vistas, desintegrando-se em uma fumaça densa.
— Não pode mudar o que já passou Tenzin. — explicou o velho — o corpo de Kavi ainda está lá, ao lado da sua casa.
— Não! Não pode ser!
A noite de 17 de maio prosseguiu e Tenzin viu-se jogando gamão com Alana. Ele viu como os olhos do outro se encheram de lágrimas quando pediu que desobedecesse aos seus pais e como elas rolaram por sua face quando ameaçou deixar de ser se amigo. Viu quando o amigo partiu e momentos depois, quando decidiu pegar um atalho pelos carreiros que cortavam o vilarejo para chegar em casa mais depressa. Tenzin sentiu o medo se apoderando do coração de Alana quando dois bandidos o puxaram pelos cabelos, arrastando-o para fora da estrada. Quinze minutos depois, ele deu seu último suspiro, abandonado no meio da trilha.
— Alana... — foi só o que saiu dos lábios de Tezin que despencou no chão, com a dor mais profunda que um ser humano poderia sentir. Jamais teria com quem conversar, nem contar histórias do Buda, nem jogar gamão. Não tinha mais nada.
Sentiu o peso do próprio egoísmo recair sobre sua alma quando curvou-se diante do velho e pediu sinceramente que o perdoasse. Sentiu um toque gelado sobre a cabeça e abriu os olhos.
— Você terá apenas uma chance de fazer com que tudo seja diferente. Agora acorde!
Acorde! Acorde!
— Tenzin, o que houve? — Kavi debruçava-se sobre eles, o feixe de galhos secos debaixo do braço — Trouxe uns galhos para a fogueira, o que você acha?
— Acho que a lenha do fogão seria melhor... — ao sussurrar as palavras, a imagem da víbora mordendo a mão de Kavi e dos dois bandidos bêbados agarrando Alana pelos cabelos, voltaram à sua mente como um flash de luz.
— O que você disse? — perguntou Kavi — Fala mais alto, senão eu não entendo.
— Eu... eu disse que já pode jogar o óleo e acender as galhadas para a fogueira.
— Ótimo! — disse Alana sorrindo — Vamos contar histórias do nascimento de Buda!
— O que acham de uma partidinha de gamão?
— Não gosto muito de jogar, mas se isso é o que você quer, Tenzin, por mim tudo bem.
— Brincadeirinha! Sentem-se aqui, tenho uma ótima história pra contar!
Tenzin olhou para o céu e viu uma estrela piscando na imensidão. Piscou de volta com um dos olhos, com a certeza de que aquele era o Grande Mestre do Tempo que lhe ensinara a mais preciosa de todas as lições: que a amizade, assim como o amor, também precisa ser cultivada para que produza bons frutos e que o egoísmo não leva à felicidade, mas sim a sorte de se ter a quem chamar de amigo.


Raquel Pagno
                                                                                                            www.raquelpagno.com    

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9 leitores apaixonados❣️

  1. Oie
    Então eu sou muito fã do gomez, ele é um ótimo autor estou encantada com seu post.. Parabéns.
    http://garotinhaadolescentea.blogspot.com.br/

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  2. Sou muito fã de contos, e esse conto da Raquel ficou maravilhoso.
    Bjs
    http://myself-here1.blogspot.com.br

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  3. OI Raquel...
    Gostei da novidade e adoro contos. Alguns eu sempre acho que falta agora.
    Esse eu entendi mais ou menos rs

    livrosvamosdevoralos.bogspot.com.br

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  4. Oii tudo bem?
    Quero muito a começar ler contos e talvez comece com esse pela historia ser uma lenda antiga Tibetana, então fiquei bem interessado.

    Abraços!!
    http://lendocomobiel.blogspot.com.br/

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  5. Uau Raquel, adorei o conto. Parabéns por fazer parte desta coletânea. Espero que publique mais coisas legais.

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  6. Olá!
    Não conhecia esse livro, gostei bastante da ideia!
    Adorei seu conto, ficou incrível! Parabéns por fazer parte da coletânea!
    Beijos!

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  7. Oi Raquel, tudo bem? Adorei seu conto, muitoo legal. Essa coletânea parece estar incrível, fiquei curiosa. Sucesso!!

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  8. Olá, tudo bem?
    Adorei a iniciativa da editora. Eu não gosto muito de contos, mas fiquei super interessada. E o conto só aumenta a curiosidade né?
    Beijos <3

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  9. Oi Raquel, tudo bem?
    Que legal essa iniciativa da editora de fazer esse livro com contos de vários autores e que bacana seu conto estar entre eles!
    Fiquei super curiosa para conhecer mais essa coletânea!

    Beijos :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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