No Meu Mundo

07:17



Capítulo 13


— Não consigo farejar o sangue dos bruxos no meio de toda essa gente. Estranho, isso não deveria acontecer.
— Não é em vão que estamos desprovidos de alguns dos nossos dons. É influência da proximidade do Messias. — concordei com um aceno de cabeça, mas não analisei o caso o bastante pra dizer que acreditava.
Poderia ser que Efrat estivesse certo. Imaginei que a besta não desperdiçaria aquela chance. Encontrar bruxos reunidos em um único local não era um fato comum. Para Adramalech seria um verdadeiro banquete.
 Disfarcei-me entre a multidão, sempre envolvido em mantos e alimentando-me de cordeiros e bezerros que eram trazidos o tempo todo como oferenda ao homem de Nazaré. Não achei que, sendo ele um santo, como todos diziam que era, se importaria em perder parte dos presentes.
Alguns dias se passaram e eu não vi nem ouvi nada que pudesse me levar a Adramalech. Andei em círculos, sempre seguindo a maré de gente que andava pra lá e pra cá esperando uma oportunidade de ter um vislumbre do Messias.
Na quarta-feira eu o vi. O monstro também se escondia com mantos encardidos, e mesclava-se entre o povo. Perguntei-me há quanto tempo ele estivera ali, debaixo dos meus olhos, mas sem que eu o tivesse visto. Foi por um descuido que, depois de um esbarrão, o tecido que lhe tapava a face caíra, revelando os olhos injetados de sangue e ódio.
Não pude conter a raiva. Tenho certeza de que, naquele momento, o horror contido no olhar maligno de Adramalech se refletia no meu próprio olhar, tamanha era a minha gana de acabar com a fera de uma vez por todas.
Corri, afastando as pessoas do meu caminho aos empurrões, mas antes que eu pudesse alcançá-lo, ele me viu e puxou seu manto por sobre a cabeça, desaparecendo novamente no meio dos peregrinos.

Eu não podia deixa-lo escapar, não dessa vez. Perde-lo de vista foi como ter milhares de punhais de gelo atravessando o meu corpo. Minhas pernas fraquejaram, senti raiva de mim mesmo. Como era possível, em um instante ter ele ali, à minha mercê, e no momento seguinte nada? Era como se o monstro se tivesse desfeito junto à poeira.

Mais em: www.raquelpagno.com

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